Escritos do Frei Rui
Quinta-feira Santa
Hoje, 01/04/2021, Quinta-Feira Santa.
Nesta homilia o Frei Rui nos faz viajar até o penúltimo dia da vida de Jesus. Podemos visualizar como teria sido a Ceia Pascal, o Lava Pés e todo amor que Jesus tinha pelos discípulos e por cada um de nós.
Por tantos anos pudemos celebrar esta Missa com o saudoso Frei Rui. A exemplo de Jesus, ele sempre quis estar conosco na Páscoa e nos ensinava com maestria esta estória milenar que definiu nossa civilização cristã.
Como o Frei Rui conseguia contar tão bem e de maneira tão didática esse e outros Evangelhos? É que ele contava não somente com palavras, mas com o coração.
Obrigada, Frei Rui! Sua bênção!
Quinta Feira Santa
Frei Rui Depiné o.f.m.
Dentre os acontecimentos últimos que marcam a vida de Jesus Cristo – está a Quinta-Feira Santa. É o penúltimo dia da vida Dele. Ele tem consciência disto. Sabia que não chegaria ao fim da semana. Isto não O desespera – não O desanima. Embora fosse muito normal deixar transparecer este drama.
Ele continua Sua obra – Sua Missão – acompanhado do pequeno grupo de discípulos.
E não os abandona nem mesmo na véspera de sua crucificação – nem mesmo sabendo que poucas horas depois estaria crucificado não como filho de Deus – não como o Salvador – o Messias – mas como um ladrão – como malfeitor – como um condenado – desordeiro.
Tudo isto não O impede de transmitir-lhes as últimas lições – os últimos ensinamentos – os últimos gestos.
A traição de um deles, de um amigo – de um discípulo – de um apóstolo, não O perturba – não O constrange – não O aniquila e Ele não reluta em tomar a última ceia com todos eles – mesmo com Judas.
Jesus Cristo queria celebrar a Ceia Pascal – a grande festa dos Judeus onde eles comemoram a libertação do Egito.
O Cordeiro Pascal era morto e preparado na Sexta-Feira Santa – no Sábado era a Ceia (sábado é o domingo dos Judeus).
Jesus Cristo seria morto no mesmo dia em que os Judeus matavam o Cordeiro Pascal. (Cristo substituiu o Cordeiro Pascal – pelo seu próprio corpo). E os Cristãos celebrariam a Páscoa de agora em diante – não mais no sábado, mas no domingo – lembrando a ressurreição de Jesus Cristo.
Jesus Cristo queria agora celebrar com os seus a Ceia Pascal, mesmo com Judas – e mesmo sendo quinta-feira, não o dia tradicional, o dia oficial.
Jesus Cristo queria transmitir ao pequeno grupo, ainda, alguns ensinamentos. Este pão e vinho seriam para eles, mesmo depois de morto – a Sua memória, a Sua lembrança, o Seu gesto – a Sua história, a Sua oração, a Sua bênção, a Sua despedida – a Sua presença no meio deles.
Durante a ceia, Jesus pensou que poderia ainda fazer um pouco mais.
Deveria fazer tudo hoje, nesta quinta-feira, pois amanhã seria tarde demais.
Pensou Jesus em lavar os pés de seus discípulos.
Nos países do Oriente, onde se andava descalço – ou com uma simples sandália, as estradas eram poeirentas – os desertos imensos – o clima muito quente – a água escassa; lavar os pés era um sinal de hospitalidade – de boas-vindas – de acolhimento – de cortesia – humildade – também de higiene, submissão.
Era um costume que vinha sendo transmitido de geração em geração pelos patriarcas hebreus. Isto desde Abraão, Isaque, Jacó.
Era serviço dos escravos, dos empregados – dos servos.
Era uma honra para um escravo lavar os pés do patrão – ou de um ilustre visitante.
Jamais passou pela cabeça de um sumo sacerdote ou de um rabino, lavar os pés de alguém. Isto seria humilhante ou rebaixamento.
O Cristo, nesta hora, se esvaziou – se despojou de Sua condição divina, se fez escravo – servo - e lavou os pés de seus discípulos.
Ele conclui o seu gesto com este conselho:
“Vocês compreendem o que acabo de fazer? Vocês me chamam de Mestre e Senhor. Está certo. Eu sou mesmo. Pois bem. Eu que sou o Mestre e Senhor lavei os pés de vocês. Por isto também vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu dei o exemplo para que vocês façam a mesma coisa.”
Somos uma parcela deste grupo primitivo – histórico – que esteve no cenáculo – junto com o Cristo. Este mesmo Cristo espera a mesma coisa de nós.
Enquanto houver homens ... e muitos e muitos outros aqui, na vigília, a memória do Cristo continuará viva.