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Escritos do Frei Rui

Prece da gratidão Mensagem de Natal

Mensagem de Natal

Prece da Gratidão

2003

Frei Rui Guido Depiné o.f.m.

Hoje é Natal. Mais uma vez é Natal. Tantas vezes já foi Natal. Um dia será Natal pela última vez. Tudo passa. Nem o tempo nem a vida voltam mais. Há um quarto de século vivo neste Hospital. Eu vi, ouvi, senti o grito de dor, de sofrimento, de desespero e de esperança de uma multidão. Um Hospital não são quatro paredes caiadas de branco. Alguém, ali, vive, sofre, ri, chora, canta e sonha com um amanhã um pouco melhor. A enfermaria, às vezes, é moradia. Todas as ambições do mundo se reduzem à saúde e à sobrevivência. Mesmo precária, a vida é bela e cheia de sentido. Desprovida de tantos benefícios se torna dramática. Faz pensar tantas coisas... Alheia ao seu calvário, uma velhinha octogenária, sorrindo, nos diz: “Feliz Natal!”. Quatro décadas hospitalizada. Rosto sereno. Parece uma pessoa do além.

Por que?

Por que assim?

Por que este lado da vida?

Por que esta doença?

Por que esta deformação?

Por que esta mutilação?

Por que a morte precoce?

Por que alguém nasce para ficar 10, 20, 30, 40, 50 anos sobre uma cama?

Convenço-me que há perguntas que não tem resposta.

Do berço ao túmulo exclamamos:

Sempre de novo: Por que?

Por que assim?

Você que tem tudo, já se questionou:

Quanto vale sua saúde?

Quanto valem suas mãos?

Quanto valem seus braços?

Quanto valem seus olhos?

Quanto valem seus pés?

Você já se perguntou:

Quanto vale sua voz?

Quanto vale sua audição?

Quanto vale a beleza natural do seu rosto?

Da sua pele sem lesões, sem feridas, sem estigmas?

Qual é o preço do seu corpo perfeito?

Quanto vale a sua liberdade?

Quanto vale sua capacidade de pensar?

Quanto valem suas faculdades mentais?

Você trocaria os seus pés por um carro importado?

Você trocaria suas mãos por uma conta milionária?

Você trocaria suas vistas pelo maior diamante ou por um punhado de pedras preciosas?

Você amputaria suas pernas por uma fortuna em ouro ou por um imóvel à beira mar?

Quanta gente sacrificou tudo isto de graça:

Sem esperar, sem querer, sem resmungar, sem se revoltar, sem perder a coragem, a fé, o sorriso e o sentido da vida.

O nosso Deus é o mesmo deles.

Por que eles?

Por que não nós?

De nós, Deus pede tão pouco.

Que nos demos as mãos.

Que enxerguemos nosso próximo.

Que caminhemos juntos.

Que pensemos sua história.

Que nossa vida não seja só nossa.

Por tudo isto, você já disse?

Obrigado, Senhor!

Feliz Natal!