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Homilias

Homilia 530 Cad 38 Sexta Feira Santa

Homilia 530

Caderno 38

Sexta-Feira Santa

Frei Rui Guido Depiné o.f.m.

Irmãos em Cristo que estais a seguir o caminho da Paixão de Cristo – Calvário.

Hoje o mundo inteiro volta os seus olhos em direção a cruz. A cruz que lembra tantas coisas como o sofrimento, a crueldade, a violência, a nossa vida de cada dia, a cruz que lembra os pecados de cada um e as misérias humanas de todos – a cruz que lembra a morte – mas hoje pensamos sobretudo na cruz que lembra um gesto supremo de amor total, de bondade infinita.

A cruz que lembra o perdão - a reconciliação. A cruz eu lembra a ressurreição Dele e as portas da eternidade abertas para cada um de nós.

Vinte séculos se passaram que tudo isto aconteceu, numa outra rua, numa outra cidade.

Esta cena não foi esquecida nem superada, nem se desgastou, e nem foi deixada de lado pelo mundo que as vezes acredita e as vezes deixa de acreditar.

Hoje pessoas de todas as idades, de todas as raças, todas as cores e nacionalidades, param olham e sentem o que aconteceu e procuram compreender que é preciso viver assim como Ele viveu. Mas mesmo assim, multidões indiferentes preferem desviar o seu olhar deste Cristo, trocam a vida dele e sua mensagem por um punhado de bagatelas e ilusões, trocam a sua vida por outras sextas-feiras mais fáceis e por outras verdades menos exigentes.

E Deus é tão grande que respeita a liberdade de cada um, mesmo aquela liberdade que é empregada para destruir a Deus e o seu semelhante. Todo ser humano sabe que é feito a imagem e semelhança de Deus mas muitos se envergonham desta semelhança. Por isto esquecem Deus.

Todo aquele que nesta Sexta-Feira Santa não sentir nada dentro de si, não tem razão de viver, não tem chão para andar, não tem casa para morar, não tem família para amar, não tem um povo com quem caminhar. Não tem destino certo para onde ir. Porque Sexta-Feira Santa é a grande dívida que cada um de nós tem a pagar e que deve ser paga aqui – porque ali será tarde demais.

Sexta-feira Santa é o julgamento de Deus que um dia será pronunciado sobre o mundo inteiro e sobre cada criatura humana pelo que fez com sua vida. Esta vida que é uma só e que não pode ser jogada fora, porque sobre ela pesam as palavras do Cristo: “Passarão os céus e a terra mas minhas palavras não passarão.” Isto nos diz.

Haverá uma justiça. Um dia haverá de acontecer – justiça pessoal, justiça individual, justiça também social, coletiva, universal.

É a justiça de Deus que tarda mas não falha. Esta justiça será absolutamente certa, isenta de erros, enganos ou falhas.

Quando Deus fizer justiça, na hora certa, para cada um, ninguém poderá mais se defender, ou provar o contrário, porque Deus conhece a nossa vida particular, a nossa vida social, a nossa vida profissional, a nossa vida familiar, assim como ela é, palmo a palmo, dia a dia, minuto por minuto.

A nós nesta hora caberá somente baixar a cabeça e caberá a justiça de Deus dar a cada um o justo salário.

Dar a cada um segundo o seu direito, as suas obras, segundo os seus talentos e méritos, segundo as suas qualidades.

A sentença de Deus será definitiva, ela se baseará numa vida que foi vivida, ou não foi vivida. Ali não haverá mais apelação ou chantagem.

Deus perguntará nesta hora o que fizemos com o seu Evangelho? O que fizemos com a vida do Cristo? O que fizemos com os nossos irmãos?

Por que preferimos as trevas a luz? A sentença de Deus então será definitiva. Ou nós nos tornaremos amigos para sempre ou inimigos para sempre. Céu, paraíso – será alguém poder amar para sempre. Inferno será alguém deixar de amar... para sempre.

Por isso não jogue cara ou coroa com sua vida, ela é preciosa demais para ser jogada em leilão.

Deus ainda haverá de julgar este mundo por tudo aquilo que aqui está acontecendo.

É sabido que um malfeitor pode passar por um inocente e um inocente por um criminoso. Mas tudo isto aqui é provisório e passageiro. Tudo aqui neste mundo tem os seus dias contados, sabendo cada um de nós que nascemos, vivemos neste mundo mas não somos deste mundo, e todos os bens do universo serão insuficientes para se comprar a felicidade eterna.

Diz o Cristo: “De que vale o homem ganhar tudo neste mundo se vier a perder a paz de Deus?”

Só levamos o amor que tivermos compartilhado, o bem que tivermos semeado, a fé que tivermos vivido, a verdade que tivermos procurado e nada mais. Este Deus vivido na consciência de cada um será a única realidade que não desmorona, que não se desgasta, que não terá fim.

Um dia chegará o seu último dia, a morte baterá a porta da sua vida.

Ela não vai nem pedir licença nem marcar a hora.

Ela não vai perguntar pelo seu nome e nem vai se interessar em saber se você é favelado, operário simples ou alto funcionário, se você mora no melhor edifício da cidade ou se nem casa tem para morar.

Nem vai lhe perguntar se você viveu ou não viveu o seu cristianismo, se você acreditou ou não acreditou em Deus.

A morte é como um juiz cego – ela decreta implacavelmente o seu fim aqui neste mundo.

E todos diante dela dobram a sua fronte e todos ali serão iguais, ricos ou pobres, sábios ou ignorantes, pequenos ou grandes.

Neste cemitério aqui estão muitos de nossos familiares.

Se um deles nesta hora pudesse se levantar e falar para todos nós, ele nos diria o quanto é verdade aquilo que o Cristo nos ensinou, e quanto vale a pena buscar a Deus neste mundo.

Diante desta realidade que está a nossa frente, que a nossa religião não seja semelhante a um balão de vento que só se eleva às alturas quando está cheio de ar.

Que a nossa vida não seja uma espécie de sepulcro, feita de restos de fé, restos de Deus, restos de Igreja, restos de religião, senão de nada adiantará depois um belo túmulo, com muitas flores, com imagens de Santos e Crucifixo de ouro; se este Cristo tiver sido ignorado, traído, negado vendido, maltratado ou ignorado.

De nada adiantarão pacotes de velas, se nossa vida tiver sido apagada.

De nada adiantarão flores e mais flores se nossa vida não tiver passado de uma lixeira.

De nada adiantará o crucifixo na cabeceira do túmulo, se durante a vida Ele foi desconhecido. Servirá apenas como enfeite mas não passará de enfeite.

Aqui estamos cada um decidindo a sua sorte, cada um com a chave da vida em suas mãos, sabendo destas palavras do Cristo: “Se quiseres entrar a vida eterna, observe os meus mandamentos. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Jesus de Nazaré é a resposta do homem que pergunta do homem acordado, do homem comprometido, do homem de fé.

Cristo como Deus não precisava ter nascido e Ele era absolutamente perfeito e feliz, mas Ele não quis ser tudo isto apenas para si. Preferiu nascer, sofrer, antes do que ver você abandonado a um falso destino.

Deus desceu do céu para caminhar na terra dos homens sendo um invisível, mostrou-se a todos. Ele podia ficar de braços cruzados, mas preferiu nascer e carregar a cruz, como um ladrão, como um condenado, como um culpado, como um miserável; antes que ver a humanidade se odiando, se destruindo pelas armas, pela palavra, pela falsidade, pela hipocrisia e pela corrupção.

Em Jesus de Nazaré está a salvação de cada um. Com a sua morte na cruz, Ele apaga os nossos pecados, e com a sua ressurreição desabrocha no ser humano aquela esperança de eternidade, que quando nós morrermos, a vida continua.

O céu proposto pelo Cristo está ligado a um caminhar certo, a uma vida conscienciosa por este mundo afora

E para terminar, lembro as palavras do grande pensador: Pascal. “Este Deus na cruz será o eterno tormento do mundo enquanto cada um não se reconciliar com Ele.”

Tudo aqui será provisório, diz o Cristo, mas é aqui que você decide a sua sorte e o seu destino.

“Passarão os céus e a terra mas as minhas palavras não passarão.”