Homilias
Homilia 528 Cad 38 Incomunicação Deus e a Palavra
PUBLICADO EM 21/MAIO/2026
Homilia 528
Caderno 38
Incomunicação – Deus e a palavra
Frei Rui Guido Depiné o.f.m.
Hoje o mundo gira em torno dos meios de comunicação. Imprensa, rádio, telefone, cinema, televisão (anúncios, propaganda, publicidade).
Os meios de comunicação que procuram alcançar todas as pessoas e com elas abrir um diálogo, nem que seja o diálogo da produção e do consumo.
Será que todos estes veículos de comunicação atingem todas as pessoas e se tornam um instrumento de união e de humanização?
A pessoa humana se torna mais humana por estar continuamente mergulhada nas mil influências que vem de fora para dentro de sua casa.
No meio de um mundo cada vez mais poluído pelo barulho, existem também o drama do silêncio. O drama da incomunicação. Quantas pessoas que não podem falar, ou talvez nasceram mudas, ou perderam a fala. Quantas pessoas que não tem o direito de falar e passam toda sorte de vexames, de injúrias, de ofensas e devem carregar este peso, esmagados durante 5, 10, 20 anos ou uma vida inteira.
É pela palavra que uma pessoa se comunica, transmite o seu pensamento, as suas ideias, as suas experiências e emoções, os seus sentimentos, os seus problemas, o seu mundo interior – a riqueza e a grandeza da personalidade; e quantos que por medo, ameaças ou perseguição, tornam-se vítimas da mudez, do silêncio, da incomunicação e devem engolir tudo isto dentro de si.
O nosso mundo das telecomunicações vai encontrar uma grande massa humana – sem voz – sem expressão, muda e silenciosa, sem o direito de falar.
Onde encontramos estas pessoas? Quando encontramos as praças sempre cheias, as ruas lotadas, os clubes e cinemas tomados?
Vamos encontrar estas pessoas na sociedade. Ainda ontem uma pessoa me dizia na secretaria: “Eu não frequento tal lugar porque a primeira coisa que as pessoas fazem é uma vistoria dos pés à cabeça para ver como a gente está vestida. Eu sou pobre e vergonha eu já passo em casa com os meus filhos.”
A sociedade, muitas vezes composta de forças cegas, reduz ao silêncio tanta gente que teria o mesmo direito de sobreviver.
Onde encontramos pessoas silenciosas que não podem abrir a boca? Em muitos locais de trabalho e em muitas profissões. Não é que ali não se possa falar. O que não se pode falar é justamente a verdade porque seriam sumariamente demitidas.
Então para garantirem o sustento suportam toda espécie de injustiças e injúrias.
É que entre o pão e a verdade, o homem escolhe o pão porque depende disto para viver.
Onde encontramos pessoas mudas, sem direito de falar? Muitas vezes dentro de casa, na própria família, entre pais e filhos, entre o homem e a mulher, entre irmãos e irmãs.
Ali tudo funciona bem. Há revistas, o jornal do dia, a televisão a cores sintoniza alguns canais. Há eletrola com som estéreo – cada um tem um rádio portátil e entre as pessoas não há ligação, não há sintonia. Há apenas o silêncio – o silêncio dos mortos – dos cemitérios cheios de gente, mas gente muda – porque a voz já desencarnou.
Por que muitas vezes nasce este silêncio nas famílias? Assim como o diálogo é fruto do cumprimento dos deveres e direitos, assim o silêncio cruel da incomunicação é consequência de direitos e deveres não cumpridos.
E se uma família se destrói pela palavra, vai se entender através de que – do dinheiro, dos negócios, da televisão a cores?
O ser humano pode ser contrariado, combatido e até odiado, mas não suporta ser ignorado como pessoa, ou tratado com indiferença ou menosprezado.
O mundo se move pela palavra.
A palavra que é capaz de construir uma nação, é a mesma palavra que é capaz de aniquilar um continente.
A palavra que é capaz de falar a verdade, a palavra que é capaz de enganar a todos.
A palavra que é capaz de fazer nascer uma vida, a palavra que leva a oferecer uma flor, a palavra que leva o criminoso ao crime, que é capaz de semear milhões de mortes.
A palavra que é capaz de fazer o Cristo nascer, a palavra que é capaz de julgá-lo e condená-lo a morte.
Foram as palavras que levaram os homens a todas as guerras que existiram desde que o mundo é mundo. Foram as palavras que levaram os homens a todos os tratados de paz e reconciliação.
O mundo se move pela palavra, mas nem sempre esta palavra é a expressão da dignidade do homem.
Cristo neste Evangelho revela-se como o diálogo entre a criatura e o criador, entre o perecível e o eterno, entre o pecador e o justo, entre o mundo e o ateu, entre Deus e o homem.
Todo aquele que não passar por este diálogo no mundo, como poderá encontrar-se consigo e com Deus? Se foi pela palavra que o Cristo se encarnou e deu a sua vida por nós.
É o diálogo com Deus que leva o homem para Deus.