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Homilias

Homilia 522 Cad 38 Sexta Feira Santa

PUBLICADO EM 18/04/2025

Homilia 522

Caderno 38

Sexta Feira Santa

Frei Rui Guido Depiné o.f.m.

Dois mil anos se passaram que isto aconteceu.

Jesus de Nazaré foi negado por um amigo e traído por outro. Preso por um bando de malfeitores e crucificado por uma multidão.

Por que?

Porque teve a coragem de falar a verdade – somente a verdade e toda a verdade.

Porque teve a coragem de pregar a justiça – a paz e a fraternidade entre todos e para todos.

Cristo é alguém desconcertante que aparece e fala como um profeta.

Por isso sua pregação cativa os humildes, inquieta os sábios, agita os poderosos e exige de todos uma tomada de posição, uma decisão pessoal, um julgamento final e uma prestação de contas da vida e das almas. “Passarão os céus e a terra mas minhas palavras não passarão.”

Cristo não se identifica com os valores e nem com a ordem estabelecida deste mundo - nem se deixa impressionar pelo poder soberano de Cesar nem de Pilatos, nem de Herodes, nem de Caifaz e nem de outros que ocupam seus postos.

Este Cristo não se acovarda.

Por que?

Porque a verdade, a justiça e a fraternidade valem muito mais do que a sua própria vida e do que o autoritarismo cego, perecível e caduco deste mundo.

Diante da sua palavra, os homens tremem mas os ímpios resistem porque o coração é duro como a pedra e as consequências são estas. O Cristo desaparece e a situação humana continua confusa, continua um impasse.

O homem dispensa Deus e cria um mundo seu próprio, um mundo fechado, autônomo, com leis ditadas segundo a sua imagem e semelhança.

Um homem desencontrado.

Um homem desorientado cria um mundo desnorteado.

Um homem sem princípios cria um mundo sem princípios.

Dali o pesadelo de tantas misérias humanas, de tantas desigualdades de bens e de direitos.

Um homem sem princípios só pode construir uma sociedade humana sem princípios, onde ali vale tudo.

Dali deveremos concluir pela lógica da história, que não haverá nunca neste mundo pão para todos.

Uma casa para todos.

Uma escola para todos.

Comida para todos.

Liberdade para todos.

Um estudo feito por pesquisadores – psicólogos e sociólogos, afirmam que o milagre da técnica e do progresso dos últimos 25 anos fracassou.

Resultado: o mundo econômico cresceu e o mundo ficou pobre, ficou mendigo a beira do caminho.

Dizem eles: nunca o homem foi tão científico materialista como hoje e nunca houveram tantos suicídios, tantos desajustados, tantas armas, tantos crimes, tantos lares destruídos, tanta falsidade, tanta degradação moral.

Eu queria neste dia, diante deste Cristo, saber duas estatísticas.

Uma: o número de abortos criminosos que se fazem por um punhado de moedas.

Dois: o número de infidelidades que acontecem por dia.

Eu queria também saber o número de famílias justas e dignas, que lutam pelas mesmas causas que Ele lutou.

A história da humanidade sempre foi assim, feita de fracassos e sucessos, de quedas e soerguimentos, de desespero e esperança.

Por isto a sentença cruel de Sartre: “Este Cristo será um eterno tormento da humanidade, seja quem quer que seja este homem.” E ele continua: “Ele estará em agonia até o fim do mundo enquanto o homem não o compreender.”

Dois mil anos depois que este Cristo foi negado, foi traído, foi magoado, foi preso e condenado a morte, porque Ele pregou a paz, a verdade para você.

Meus irmãos, os critérios de justiça e de segurança que o mundo nos oferece são estes – mas mesmo assim, no absurdo do ódio, do desumano e da cruz do dia a dia, vai acontecendo o Reino de Deus entre os homens de boa vontade, e os homens sabem que a libertação nasce e se concretiza ali.