Homilias
Homilia 517 Cad 38 Sexta-Feira Santa
PUBLICADO EM 29/03/2024
Homilia 517
Caderno 38
Frei Rui Guido Depiné o.f.m.
Sexta-Feira Santa - Jesus Cristo -
IV Estação
Quaresma
Amigos em Cristo.
Tudo o que foi dito pelos Profetas cumprir-se-á e o Filho do Homem será traído, negado, preso e crucificado.
Cristo nasce dentro de um povo humilhado, perseguido, rejeitado, onde dominam os conflitos de guerra, ódios e injustiças – onde reina a desolação e angústia e também onde a profecia traz uma remota esperança de libertação.
Cristo cresce no meio deste povo, aprende no meio deste povo, e vê que o homem ali vive alienado, confuso e escravizado por toda espécie de desajustes humanos.
Desta situação tremenda nasce a grande mensagem, nasce a palavra de um Deus que mostrava ao povo de Israel a possibilidade de sua libertação.
Todos os poderes da Terra não O impressionavam. Nem o poder soberano de César, nem Pilatos, nem Herodes, nem Caifaz O perturbam.
Os pagãos tremem, os fariseus sentem que são incriminados por sua conduta.
Cristo não se deixa incriminar pelos poderosos deste mundo.
Por seu judeu, compreendeu mais do que ninguém a História, a História do seu povo. Um povo oprimido e deportado para o exílio. Cristo percebe que este povo, ali no cativeiro, compreende que é irmão – que se une numa só família – que sente que todos são seres humanos e que entre pessoas humanas não pode haver opressores e oprimidos, ricos e pobres, pretos e brancos...
Esta consciência de fraternidade cresce dentro do Cristo e Sua missão então consiste em levar amor onde há ódio, levar a paz onde há guerra, levar o perdão onde há pecado, levar esperança onde há desespero e levar a libertação onde domina a cegueira da escravidão.
E Cristo começa humildemente a sua caminhada não entrando nos palácios dos prepotentes mas sim andando pelas praças, ruas, aldeias e campos, anunciando uma mensagem profunda e comovedora.
“Perdoai a todos os vossos inimigos” dizia ele um dia perto de Naim. “Socorrei os infelizes, protegei os fracos e buscai antes o Reino dos Céus e tudo vos será dado por acréscimo.”
“Fazei antes um tesouro nos céus onde nem os ladrões, nem a traça e nem a ferrugem o podem destruir. E quando derdes um banquete, não convideis os poderosos para que depois tudo possam retribuir, mas convidai antes os pobres, os infelizes, os cegos e os aleijados. E sereis felizes porque eles não terão com que vos retribuir, mas sereis recompensados na ressurreição dos justos.”
Jamais aparecerá entre a multidão alguém com tanta sabedoria e bondade.
Muitos diziam: não é um simples homem. É um Profeta como Elias e Moisés.
Suas palavras e gestos são de amor e de compreensão.
A imagem de um libertador, de um Messias, pairava sobre todo povo de Israel.
Aquele homem é Deus, diziam as multidões.
E desceu do céu para salvar os homens, conforme narram as escrituras – dizem outros.
“Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”, lhe diz alguém.
“Teu irmão há de ressuscitar. Eu sou a ressurreição e a vida. Todo aquele que crer em mim, ainda que esteja morto, viverá.”
“Levanta-te” diz a Lázaro, “e sai do sepulcro”. E Lázaro lhe obedece.
“Vai, toma o teu leito e não peques mais” e o paralítico põe-se de pé e volta para sua casa.
Quem é este que perdoa os pecados, que aplaca a tempestade, ou caminha sobre as águas, que dá vida aos mortos, que restitui vista aos cegos, que aos mudos faz falar e que liberta os possessos?
A fama dos seus milagres chegava até os confins da Judeia.
Então emissários vêm e lhe perguntam:
“És tu o que há de vir ou devemos esperar por outros?”
“Ide dizer o que viste e ouvistes. Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mudos falam, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova.”
Aos pobres, repete Jesus, é anunciada a Boa Nova da salvação.
A multiplicação dos pães e 5 peixes sacia milhares de pessoas. A multidão proclama-O Rei.
Mas o Seu Reino não é deste mundo.
Amigos. Vamos a Jerusalém. Cumprir-se-á tudo quanto escreveram os Profetas sobre o Filho do Homem. Será entregue aos gentios, escarnecido, açoitado e morto – mas ao terceiro dia ressuscitará dentre os mortos.
Corre por toda parte a notícia de que Jesus se aproxima da Cidade Santa.
As multidões se aglomeram e o saúdam com ramos de oliveiras e cantam: “Hosana ao Filho de Davi.” Três dias depois – esta mesma multidão grita contra Ele a sentença de condenação: “Crucifica-o! Crucifica-o!. Não queremos que ele reine sobre nós.”
E o Cristo então toma a cruz ao ombro, é oprimido por um povo oprimido, é subjugado por um povo também subjugado e segue com soberania o caminho dos condenados – o caminho dos réus.
Com a cruz em seus ombros, no meio de injúrias e humilhações, segue mudo e paciente até o final.
E aqui no patamar desta Igreja, também acontece entre nós que o Cristo está passando entre nós, vivendo entre nós, sofrendo as mesmas injúrias, caminhando para o mesmo Calvário.
Maria olha para ele. Não é um estranho. Era sua mãe. Quase irreconhecível. Um abraço desesperador – cruel. Um abraço divino, um abraço humano, e Cristo continua sua caminhada.
Fora da cidade de Jerusalém, ainda próximo das muralhas, ergue-se um elevado rochoso. É um lugar de desolação, um lugar de pavor tétrico onde restos humanos são disputados pelos chacais do deserto e pelos abutres.
Restos humanos jazem pelo chão. É o calvário onde os ladrões, os assassinos e os criminosos são executados.
Cristo está entre os criminosos olhando para você, olhando para você com vontade de dizer-te “Ainda hoje estarás comigo na Paraíso.”