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Homilia 514 Cad 38 Cego de nascença

Homilia 514

Caderno 38

Cego de nascença

Frei Rui Guido Depiné o.f.m.

Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.

Neste Evangelho de hoje Cristo se apresenta como a luz, que poderá iluminar o mundo se esta luz for acolhida pela humanidade. Luz que poderá mostrar o outro caminho que o homem deve percorrer se quiser entrar na vida eterna.

Luz, não só para os olhos verem, porque muitos veem e na realidade andam nas trevas.

“Eu sou a luz do mundo”: é uma luz diferente da luz do sol. É uma luz diferente da lâmpada elétrica. É uma luz diferente da luz eu brilha no candieiro.

“Eu sou a luz do mundo”, insiste Cristo.

É uma luz diferente do clarão difundido por um incêndio que lavra uma floresta.

É uma luz diferente de todas as luzes que iluminam uma cidade inteira.

Estas milhares de lâmpadas acesas não significam que os homens andam na luz.

Estas milhares de lâmpadas acesas nos mostram uma cidade que dorme no meio da noite, nos mostram uma praça iluminada, nos mostram gente andando por muitas ruas, entre edifícios. Estas lâmpadas nos mostram muitas coisas ao mesmo tempo.

Estas luzes não nos mostram toda a realidade da vida humana.

Muitos têm muitas luzes nos seus compartimentos, na sua residência e no entanto isto não significa que estejam na luz, que andam na luz, que sintam dentro de si a luz, que sejam filhos da luz.

Talvez muitos que vivem dentro de uma choupana e tenham apenas um lampião no teto escuro, sejam filhos da luz. Muitos que talvez vivem sem nem mesmo um lampião, talvez estejam em plena luz porque dentro deles arde aquela luz que veio iluminar o mundo.

Esta é a luz da qual Cristo fala. “Eu sou a luz do mundo”.

Esta luz é uma presença viva que atinge a totalidade da estrutura humana.

Esta luz é uma força que ilumina o entendimento que esclarece a razão e fortifica a vontade do homem.

Esta luz de Cristo é uma luz que envolve todo o homem e o torna dependente desta luz e sem esta luz todas as demais luzes não passam de artifícios, não passam de trevas.

O Evangelho de hoje nos conta a história de um mendigo, cego de nascença, que andava até um ponto da rua e lá ficava pedindo alguma esmola.

Passa Jesus por esta rua. Passa perto do mendigo e se interessa por ele. Enquanto seus discípulos lhe perguntam: “Senhor, quem pecou? Seus pais ou ele, para que nascesse cego?”. Enquanto os discípulos veem naquele homem um indigente igual a tantos outros, Jesus vê nele uma pessoa que precisa de libertação. E Jesus responde: “Nem seus pais nem ele pecou. Isto aconteceu para que nele se manifestasse o poder e a obra de Deus”.

Jesus vê neste mendigo, não um mendigo, mas um homem que precisa de luz, que precisa ver o próprio chão que pisa, que precisa ver o caminho por onde anda, que precisa ver o mundo em que vive, que precisa conhecer o seu próximo.

Este mendigo cego de nascença, representa a humanidade cheia de deslizes, insucessos e fracassos.

Este mendigo representa a marcha da vida humana em busca de luz, em busca de um Messias, de um libertador. Sente o homem dentro de si que deve ir ao encontro da luz, porque não foi criado para as trevas.

O encontro deste mendigo com o Cristo é o encontro da humanidade com Deus.

Diante de Deus todos somos mendigos. Este mendigo somos nós mesmos porque fazemos parte da humanidade que caminha e que, muitas vezes, caminha nas trevas.

Este olhar, estas pupilas que se abrem, é a nossa própria libertação, é a libertação do dia a dia quando nos encontramos com o Cristo.