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Homilias

Homilia 510 Caderno 35 Advento

PUBLICADO EM 01/12/2024

Homilia 510

Caderno 35

Advento (escrito em 1975)

Frei Rui Guido Depiné o.f.m.

O mundo histórico.

O mundo moderno.

A nossa Comunidade.

O mundo no tempo de Cristo antes dele nascer, não era melhor do que o nosso.

Estava mergulhado numa desordem geral.

Um verdadeiro mar de confusão, de problemas, de pecados.

Confusão política, econômica, religiosa e social.

Confusão Política:

Os romanos eram o povo mais poderoso do mundo. Por isto, através da força e do poder, iam abocanhando todos os países vizinhos. Os grandes exércitos de Roma devastavam tudo. Dominavam as cidades e povoados, e ali colocavam procuradores e governadores que fossem fiéis ao Império. Todo mundo sabe que uma guerra não é feita apenas de pensamentos e palavras.

Ela significa carnificina, matança enorme, sangue derramado de inocentes e culpados, famílias destruídas, propriedades tomadas, violência, ódio, revoltas, contra ataques, desespero, etc...

...

A pior consequência da ocupação dos romanos era a escravidão e exploração imposta ao povo.

Alguns procuradores tornaram-se tão cruéis perante o povo, que foram assassinados.

Arquelau, filho de Herodes o Grande, foi substituído por causa de sua crueldade.

Herodes o Grande mandou matar parte de sua família e grande parte de seus parentes porque o achavam severo demais.

Ele exigiu o título de Rei dos Judeus, amigo e aliado do povo.

Doravante então, este povo vencido não era mais livre. Tornava-se escravo.

Pagaria, a partir de então, pesados impostos a um povo estrangeiro, isto significa que enquanto a pátria fica mais pobre, o Império Romano ficaria mais rico.

Seria a mesma coisa que se um estranho fosse lá na sua propriedade, ocupasse a força a sua casa, obrigasse você a morar no paiol e fizesse de você seu empregado trabalhando de sol a sol, com frio ou chuva, doente ou não, e depois de tudo isto ficasse ainda com todos os produtos e colheita.

Isto deve deixar a pessoa meio louca. Deve despertar um sentimento de vingança tremendo.

Foi isto o que aconteceu em toda a Judeia, em toda a Palestina, antes do Cristo nascer.

Então os operários tinham uma vida de cachorro, andavam miseráveis, famintos, doentes, sem esperança nenhuma de uma vida melhor enquanto os patrões olhavam de cima para baixo e não se misturavam com o “Zé povinho” formando, assim, uma camada de dominadores e dominados, de livres e escravos, de pobres e ricos.

Um querendo engolir o outro, mas todo mundo sabe que numa briga dificilmente vence o mais fraco.

Este povo assim escravizado sabia que uma revolta coletiva seria a mesma coisa de ver a pátria destruída...mesmo assim, por baixo, estava se criando uma espécie de onda de contra golpe de libertação.

Confusão Social:

A classe favorecida, rica e privilegiada não sentia o problema da exploração, então não se inquietava com a situação nacional.

Se o país fosse a pique, fosse roubado, espoliado, não importava. Eles estavam bem.

A classe pobre, operária, tentava com medo, se unir para descobrir uma saída.

Confusão Religiosa:

Com a invasão os romanos trouxeram para dentro da Palestina, aquele amontoado de deuses. A história diz que os romanos acreditavam em muitos deuses.

Tinham templos para tudo, cheios de divindades – tinham o deus da caça, o deus da guerra, o deus da colheita, o deus da bebida, o deus da sorte, do destino, menos o Deus verdadeiro que transformasse a vida deles e que ensinasse o respeito e o amor ao próximo. O paganismo e a idolatria tinham tomado conta dos romanos que viviam numa corrupção generalizada e numa decadência moral sem reservas. Os costumes depravaram-se e a tudo isto foi atribuída a destruição do grande Império Romano.

O povo judeu tinha a sua religião mais ou menos pura. A sua crença, as suas práticas religiosas, a sua fé, eram manifestadas em cerimônias, tanto nas Sinagogas como no Templo em Jerusalém.

Pela Bíblia deles, chamada Torá, eles deviam rezar algumas vezes por dia, ou inclinados na direção do sol ou ajoelhados ou sentados.

Todos deviam rezar de manhã, ao meio dia e a tarde.

Nas orações deviam lembrar os deveres, a adoração, a humildade e a esperança do povo judeu.

Muitos praticavam o jejum nas terças e quintas para pedir o perdão dos seus pecados.

Todo bom judeu deveria praticar a hospitalidade, o cuidado aos órfãos, a soltura dos prisioneiros e a assistência aos pobres.

Todo bom judeu deveria fazer três peregrinações por ano para a Cidade Santa – Jerusalém.

Vinham peregrinos do mundo inteiro.

Em 67, dois milhões e setecentos mil peregrinos se reuniram.

Páscoa – Pentecostes – Tabernáculo.

Ali em Jerusalém estava o grande Templo, construído por Salomão mil anos antes de Cristo.

Destruído em parte por Antíoco no ano de 167 antes de Cristo.

Herodes o Grande mandou reconstruí-lo.

Contratou dez mil operários que trabalharam onze anos ininterruptamente.

Na base tinham muralhas de até 40 metros de largura.

Foi necessário aplainar uma montanha que cedeu o lugar aos fundamentos do Templo.

O Novo Testamento diz que Jesus e os seus apóstolos frequentaram o Templo.

E foi ali, aos 12 anos, que Jesus se perdeu dos pais, quando Maria e José fizeram a peregrinação a Jerusalém. Foi ali que Ele pregou aos doutores da lei.

Mais tarde Jesus chora sobre Jerusalém e lança aquela profecia: “Dias virão em que teus inimigos te cercarão por todos os lados e não ficará pedra sobre pedra.”

No ano 70 depois de Cristo, o Templo é totalmente destruído pelas legiões de Tito e incendiado.

Lembrem-se que estamos há alguns anos antes do nascimento do Cristo. O povo judeu se vê confuso. À sua religião mistura-se o paganismo dos romanos que acreditavam em centenas de deuses.

A religião e a fé estavam ameaçadas e o povo era escravo de um invasor.

Mas eles não se dão por vencidos. Mesmo como escravos e dominados eles se unem e criam uma consciência comum nacional de libertação.

Então, este desejo de sair desta situação tem um fundo religioso.

O povo acreditava num deus mas não um Deus que mora lá atrás do firmamento – um Deus escondido – distante, mas um Deus ligado à sua terra, ao seu povo, um Deus que age e que vê tudo.

É dentro deste contexto que nasce a fé cristã – a esperança de um Salvador, de um Messias, de um libertador.

A maioria do povo judeu lia as escrituras sagradas e conhecia as profecias e sabiam que o tempo estava próximo.

Cada um imaginava um advento diferente.

Uns esperavam um Deus que viesse de repente e destruísse todos os pecadores e favorecesse os justos e criasse um mundo novo cheio de felicidade.

Outros esperavam um Deus bom, pacífico, que mostraria a todos a verdade e a justiça.

No entanto a maioria do povo judeu esperava o Messias como um líder nacional, um grande general de espada na mão, um herói que comandaria as tropas libertárias de Israel e expulsaria os invasores romanos para fora do país.

Nasceria novamente a paz e a felicidade para todos.

Haveria uma só fé e uma só religião e o Templo seria o lugar de encontro de todos os povos do mundo inteiro, e nunca mais seria destruído.

Não haveria mais escravos e escravizadores, fracos e fortes, famintos e saciados, pobres e ricos, vencidos e vencedores.

Um certo João, chamado também de Batista, antes de Cristo, pregava no deserto que o Messias estava para chegar.

Andava por toda a Jerusalém, pelo Jordão, pelos campos e desertos, fazia penitência e gritava para todas as pessoas que se preparassem porque Ele viria e faria justiça.

O fogo de sua ira cairia sobre Israel e sobre todos os judeus maus e infiéis.

“Preparai os caminhos do Senhor.”

Só os que se converterem escaparão da ruína.

A conversão era aquela que os profetas tinham anunciado.

O principal era escolher o caminho do bem. Os que realmente se convertessem se deixavam batizar no [Rio] Jordão. Ali os judeus se lembraram da passagem do Mar Vermelho, onde Deus fez perecer os inimigos.

Deus não os tinha abandonado. Caminhava junto. Eles tinham consciência disto. João continuava diante de uma multidão que crescia sempre mais.

“Aquele que há de vir já está no campo para separar a palha do trigo.”

Homens de todos os lugares e todas as classes acorriam a João para ouvi-lo e serem por ele batizados.

A expectativa aumentava: “Aquele que há de vir será todo poderoso – há de governar o seu povo com mão forte e o seu Reino não terá mais fim.”

Imaginem este povo como tinham sede de libertação. É um povo que se entusiasma, que se inflama, se torna fanático, é um povo que se deixa levar fácil quando se trata de lutar pela pátria ou pelos seus direitos.

Em 1960 o Rei Hussein estava convidado para vir a uma pequena Aldeia perto do Jordão.

Quando o povo soube, aos milhares abandonaram as suas casas, aldeias, e se acotovelaram para saudá-lo.

Uma hora antes que ele chegasse, passou uma motocicleta e anunciou que ele estava a caminho. A multidão começou a gritar, a cantar “Viva o nosso Rei”, sem ele estar presente.

A Marcha de Marrocos: Trezentos e cinquenta mil pessoas atravessando numa marcha pacífica de protesto, o deserto do Saara.

É este o ambiente de entusiasmo, de alegria, de fanatismo em torno de João Batista, no qual o Cristo há de nascer na noite de Natal. Ele é esperado como o Messias.

Imaginem que frustração, que desilusão, quando ele nasce no deserto como um desconhecido e ainda por cima, como uma frágil criança.

Bem, até aqui é o Advento histórico do povo judeu. Agora vamos ao nosso.

O mundo moderno

O mundo moderno está dividido pelo poder, pela força, pela violência, pelas ameaças, pelo medo e pelas misérias.

Tanto as riquezas nacionais como mundiais estão nas mãos de uma minoria que comanda todo jogo econômico e político tanto dentro como fora do país, com todas as consequências de injustiças e desajustes provenientes de um mundo cada vez mais materialista e materializado.

O nosso mundo é o mundo dos contrastes, das diferenças, das desigualdades, dos desequilíbrios.

De três partes da humanidade, duas passam fome.

Dois bilhões e meio de homens fazem parte da chamada geografia da miséria, comem muito mal ou morrem cada dia de fome, enquanto nos USA são gastos 4 bilhões de dólares por ano com cães, gatos e animais de estimação.

Setenta por cento dos doentes no mundo não conhecem médico ou porque não têm meios para isto ou não há médicos nestas regiões.

Setecentos e cinquenta milhões de pessoas vivem numa ignorância primitiva – são analfabetos, não sabem nem ler nem escrever o próprio nome.

São setecentos e cinquenta milhões de pessoas que vegetam sem futuro, sem garantias humanas, sem segurança, alienadas, marginalizadas.

É certo que cada um pode utilizar seus bens como bem entenda, mas ninguém tem o direito de enriquecer massacrando o seu semelhante.

Uma estatística diz que só no Brasil gastam-se mais de 20 bilhões de cruzeiros só em fumo. E isto num ano. Vinte bilhões por ano. Sem se contar o que se gasta em bebidas alcoólicas, espetáculos, diversões, prostituição, etc.

Quanto não se gasta dos cofres públicos num só Carnaval em nosso país?

Quanto não se gasta na organização de uma Copa do Mundo?

Quanto não se gasta em armamentos ou em preparativos para possíveis guerras?

Basta dizer que um só avião de guerra custa 50 milhões de dólares, que daria para entregar 50 milhões de tratores de campo se cada um custasse 1 milhão de dólares.

Depois há fome, analfabetismo, doentes desamparados, não por falta de meios mas por falta de humanismo.

É este o mundo cruel que o Cristo encontra para nascer. É esta a sociedade humana que festeja mais um Natal – o Natal de 1975.

Festejar o Natal é fácil. Viver o Natal é o problema.

Assim, nós, como líderes de Comunidades, representantes da Igreja, vemos como o mundo continua mergulhado no pecado.

Pecado é tudo aquilo que impede o outro de ser feliz – tudo aquilo que ofende a Deus, o próximo ou a nós mesmos.

Há muitas espécies de pecado que fazem com que o Cristo vá nascer de novo num deserto, numa estrebaria, por não encontrar ambiente onde nascer.

Desunião de famílias, brigas entre vizinhos, fofocas, mulheres enganadas, exploradas. Namoro indecente, palavrões, tratamento grosseiro na família. Pouca estima, desentendimentos contínuos, casais brigados que não se falam por muito tempo.

Moças que fogem de casa, ou porque são irresponsáveis ou porque são maltratadas pelos pais. Filhos que são tratados com brutalidade ou aos gritos.

Quanta hipocrisia e falsidade muitas vezes escondemos por trás do nosso rosto? Inventamos coisa do nosso próximo. Em tempo de política isso vira prato de cada dia.

Enquanto nós não nos libertarmos de tudo isto e não ajudarmos o outro a libertar-se também, o Natal será sempre uma espécie de teatro e o Cristo continuará nascendo em Belém, no meio dos animais, em vez de nascer na nossa vida.

Finalizando.

Todo ser humano alimenta dentro de si a esperança de uma vida melhor. Libertação dos problemas, das doenças, dos conflitos, dos males, dos pecados.

Quem tem uma dívida, espera libertar-se dela.

Quem semeia um campo espera ter uma colheita.

O operário espera no fim do mês o seu salário.

Quem casa espera ser feliz.

Quem é pobre espera melhorar um dia.

Quem é pequeno espera crescer.

Quem está preso espera a liberdade.

Quem se desentende ou briga espera reconciliar-se.

Quem está vivo espera viver sempre um pouco mais.

Assim o coração do homem é cheio de esperança de uma vida que pode um dia ser melhor.

Que vamos fazer neste Advento para que o Cristo continue a acreditar em nós que, bem ou mal, tentamos levar adiante o seu nascimento e a sua mensagem?

A resposta é a vida que cada um leva.

Fim.