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Homilias

Homilia 25 A Samaritana

Homilia 25

A Samaritana

(Evangelho de João, capítulo 4)

Nesta passagem bíblica, o Cristo se apresenta como um peregrino estranho, pedindo um pouco de água para matar sua sede.

Cansado e exausto das longas caminhadas por desertos, campos, vales e montanhas, Ele toma a direção de quem vai à Samaria. Por que Samaria?

Os judeus não se dão com os samaritanos. Não entram nas suas terras, nem compram deles alimentos, nem estabelecem qualquer vínculo social ou religioso. A Lei dizia: “Quem comprar alimentos dos samaritanos será apedrejado em praça pública. Comprar alimentos de samaritanos é como comprar carne de porco.”

Sentado a beira do poço, Jesus descansa e espera por alguém ainda que desconhecido e anônimo. Ele está sozinho. Os discípulos foram comprar alimentos na Samaria. Seriam apedrejados pelo caminho ou depois? A lei era severa. Isto não o preocupa.

Uma mulher vem chegando de longe – de Sicar – aproximadamente dois quilômetros, para apanhar água do poço. Veio tantas vezes. Veio hoje também. Ela se espanta diante do pedido: “Qual seria a intenção do homem?”.

Mas era cortesia oriental não negar um copo d’água, até mesmo a um inimigo. Um tanto surpresa, ela resiste:

“- Como tu, sendo judeu, pedes a mim, que sou samaritana?”

Cristo não se perturba.

“- Se tu conhecesses o dom de Deus e quem te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a Ele e Ele te daria água viva.”

Ela retruca:

“-Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar água viva? Por acaso és maior que nosso Pai Jacó, que nos deu o poço?”.

Respondeu Jesus:

“-Quem bebe da água que eu lhe der, nunca mais terá sede.”

Disse a mulher a Jesus:

“- Senhor, dá-me sempre desta água.” Agora é ela quem pede.

Jesus sabia aonde queria chegar. A água do poço, por mais límpida e cristalina que fosse, não era o mais importante. Ele podia ter bebido água dos filetes que nascem da encosta da rocha ou até mesmo de outra fonte.

Afortunadamente, ali Jacó construíra o poço. A água, por um processo natural de filtragem ficava represada na profundidade de 30 metros por três de largura. A água da rocha certamente é a mais pura, a mais limpa, a melhor possível. Jacó pensou em todo seu povo antes que alguém se tornasse proprietário de tudo isso, Este poço, além de recordar a história milenar dessa gente, simbolizava as bençãos dos patriarcas sobre todos os descendentes.

Por isso, essa água era sagrada.

Mas algo de desconcertante acontece. O forasteiro judeu conhece a vida desta mulher. Conhece o seu passado, o seu presente, a vida de sua família.

Ele adianta que ela já teve cinco maridos e está com outro. Ele não a incrimina por isto. Ele não a manda embora. Ele não a rejeita. Ele não tem preconceitos. Ele vai cuidadosamente cativando a mulher. Ela vai se revelando. Ela conhece as escrituras sagradas. Ela faz parte daquela porção de gente que sonha com a chegada do Messias. “Quando Ele vier, vai nos fazer muitas coisas.” Essa mulher carrega muito mais do que um cântaro de água. Ela tem muita coisa boa dentro de si, mas sente que ainda é carente e que lhe falta o essencial da vida. Ela é uma mulher forte. Enfrenta o calor, o sol, a longa caminhada, a distância, sem queixar-se de nada. É uma mulher de personalidade, sensibilidade e muito boa vontade. Não se basta a si mesma. É receptiva. Não é mesquinha. Não fala mal de ninguém. Os vizinhos não são seus inimigos. Ela não carrega ódio de ninguém, nem sente desconfiança, nem medo, nem mal estar diante do estranho.

Ela era sozinha contra um grupo de desconhecidos. O lugar era semi deserto. Podiam ser malfeitores. Isto não passa pela sua cabeça. Ela cumpre suas obrigações domésticas, busca água para sua família. Ela tem convicções religiosas profundas. Ela vai cativando o visitante e vai instruindo seu interlocutor. Talvez Ele não soubesse muitas coisas das Escrituras. Pelo menos ela nunca o tinha visto nem ouvido falar dele. Depois de escutá-la e sentir a grandeza de seu espírito, o Cristo se identifica. Ela é digna. Ela merece saber a verdade.

O mistério se desfaz. Ele não é um simples viajante, cansado e sedento, em busca de um pouco de água. De Ele: “Este Messias tão esperado e que há de vir salvar seu povo, sou Eu mesmo que está falando contigo.”

O que se passa na alma desta mulher foge aos limites do humano. A figura de um Messias na mentalidade judaica era de alguém portentoso.

Agora Ele aí, dependente dela...

Dependente de uma samaritana...

Dependente de uma vasilha de água...

Seria Ele? Seria mentira? Seria verdade?

Convencida da verdade, ela acreditou. Tanta felicidade a fez até esquecer o cântaro a beira do poço. E ela foi correndo e gritando para seu povo: “Vinde ver um homem que é sábio e que disse tudo o que eu fiz. Será que Ele não é o Cristo?”. O povo acreditou nela, saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus. Esta mulher que fora buscar simplesmente um pouco de água, vai carregando dentro de si muito mais que um cântaro de água, uma fonte de água, muito mais que o poço de Jacó. Ela é portadora da Boa Nova do Reino de Deus. Ela é arauto, mensageira, precursora da chegada do Messias no meio do seu povo. E Ele se torna hóspede desta gente.

O Cristo, sendo judeu, confiou nela. Samaritana ela, confiou Nele. Ambos se identificam e tem um mesmo espírito e a mesma sede do divino. Não basta ter sede, é preciso beber. Não basta beber a água do poço, é preciso beber da outra fonte. É esta água que os dois querem dar a seu povo.

Agora, se o Cristo pedisse água à samaritana, com que presteza ela lhe daria. Mas Ele não pede mais água. Ele quer muito mais. Ela será parte de sua história, um pedaço de sua vida.

Neste encontro, Ele foi bem sucedido. Ela também. Doravante esta mulher sem nome, sem importância aos olhos do mundo, se faz história sagrada, página da Bíblia, personagem do Evangelho, história da salvação.

Seu gesto se faz memória. Seu diálogo passará de geração em geração, chega até nós e irá adiante de nós. Mesmo morando, vivendo e morrendo na Samaria, ela agora é alguém universal, porque sua vida se confunde com a do Messias.

Penso que as vezes é tão difícil dar de beber a Deus sobretudo quando Ele vem disfarçado de forasteiro, todo empoeirado, sujo, faminto, doente, pobre, mendigo ou miserável. Mas, também é fácil dar de beber a Deus. Basta ter um poço. Ter uma vasilha. Saber captar a água, mas é preciso conservá-la limpa. É preciso ainda entender que o poço não é particular, não é só de Jacó, nem só dos samaritanos.

A água cristalina que nasce da pedra, não só da pedra, nem só da montanha, mas de Deus, por isso é preciso reparti-la. Por tudo o que a samaritana fez.

Quem é a samaritana em nossos dias?

Onde situar o poço de Jacó hoje?

Simplesmente dentro de você.