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Homilias

Homilia 100 Samaritana

Homilia 100

Samaritana

Nesta passagem bíblica o Cristo se apresenta como um peregrino estranho, pedindo um pouco d’água pra matar sua sede.

Cansado, exausto das longas caminhadas por desertos, campos, vales e montanhas, Ele toma a direção de quem vai para a Samaria. Por que a Samaria? Os judeus não se dão com os Samaritanos. Não entram nas suas terras, nem compram deles alimentos nem estabelecem qualquer vínculo social ou religioso. A lei dizia: quem comprar alimento dos Samaritanos, será impuro e será apedrejado em praça pública.

Comprar alimentos dos Samaritanos é como comprar carne de porco. Sentado à beira do poço, descansa e espera por alguém, ainda que desconhecido e anônimo. Ele está sozinho. Os discípulos foram comprar alimentos na Samaria. Seriam apedrejados pelo caminho ou depois? A lei era severa. Isto não os preocupava.

Uma mulher vem chegando de longe – de Sicar. Aproximadamente 2 km para apanhar água do poço.

Veio tantas vezes. Veio hoje também. Ela é a esperança diante do pedido: “Dá-me de beber. ” Qual seria a intenção deste homem? Mas era cortesia oriental não negar um copo d’água até mesmo a um inimigo. Ela resiste: “Como tu sendo Judeu pedes de beber a mim que sou Samaritana”? O Cristo não se perturba. “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesmo lhe pedirias a Ele e Ele te daria água viva”. Ela retruca: “Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? Por acaso és maior que nosso Pai Jacó que nos deu o poço”? Respondeu Jesus: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Quem beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede”. Disse a mulher a Jesus: “Senhor, Senhor dá-me dessa água”. Agora é ela quem pede.

Jesus sabia onde queria chegar. A água do poço por mais límpida e cristalina que fosse, não era o mais importante.

Ele poderia ter bebido água dos filetes que nascem da encosta da rocha e até mesmo de uma outra fonte.

Ali Jacó, muito inteligente, construíra o poço. A água por um processo de filtragem ficava na profundidade deste poço de 30 metros por 3 de largura.

A água da rocha certamente é a mais pura, a mais limpa, a melhor possível.

Jacó construiu este poço pensando em todo mundo. Alguém poderia se apossar de tudo ali. Este poço, além de recordar a história milenar desta gente, simbolizava a bênção dos Patriarcas sobre todos os descendentes. Por isto esta água era sagrada.

Algo desconcertante se passa. Este forasteiro judeu conhece a vida desta mulher. Conhece o seu passado – o seu presente, a sua família. Ele adianta que ela já teve 5 maridos e está com outro.

Ele não a incrimina por isto. Ele não a manda embora. Ele não a rejeita. Ele não tem preconceitos. Ele vai cuidadosamente cativando a mulher. Ela vai se revelando. Ela conhece as escrituras sagradas. Ela faz parte daquela porção de gente, que sonha com a chegada do Messias. “Quando Ele vier, vai nos fazer conhecer muitas coisas”. Esta mulher carrega muito mais do que um cântaro de água. Ela tem muita coisa boa dentro de si, mas sente que ainda é carente e que lhe falta alguma coisa superior.

Ela é uma mulher forte, tem personalidade, sensibilidade. Não se basta a si mesma. Enfrenta o calor, a caminhada, a distância. Não é mesquinha, não fala mal de ninguém. É receptiva. Os vizinhos não são seus inimigos. Ela não carrega ódio de ninguém, nem sente desconfiança ou medo de ninguém. Ela era sozinha contra um grupo de estranhos, o Cristo e os discípulos. O lugar era semi deserto. Ela cumpre suas obrigações domésticas; prover sua casa de água. Ela tem convicções religiosas profundas. Ela vai cativando o visitante e vai instruindo seu interlocutor. Talvez Ele não soubesse muita coisa das Escrituras Sagradas... Pelo menos ela nunca O tinha visto. Depois de escutá-la e sentir a grandeza de seu espírito o Cristo se identifica. Ela é digna. Ela merece saber a verdade.

O mistério de desfaz. Ele não é um simples viajante sedento, disfarçado e cansado a morrer de sede. Ele diz: “Este Messias que há de vir e salvar o seu povo sou Eu mesmo que estou falando contigo”. O que se passa na alma desta mulher foge aos sentidos de um simples mortal. Isto é incrível.

O Messias depende dela?

Dependente de uma Samaritana?

Dependente de uma vasilha de água?

Poderia ser mentira mas ela acreditou.

Convertida desta certeza a mulher, fora de si, esqueceu até o cântaro e foi correndo e gritando para o seu povo. “Vinde ver um homem que é sábio e que me disse tudo o que eu fiz. Será que Ele não é o Cristo? ”. O povo, saindo da cidade, acreditou nela e foi ao encontro de Jesus.

Esta mulher que fora buscar simplesmente um pouco d’água vai carregando dentro de si muito mais do que um cântaro – uma fonte de água, muito mais do que todo poço de Jacó. Ela é portadora da Boa Nova do Reino de Deus. Ela é arauto, mensageira, precursora da chegada do Messias no meio do seu povo. E Ele se torna hóspede desta gente.

O Cristo sendo Judeu confiou nela. Ela, Samaritana, confiou nele. Eles se identificam. Tem o mesmo espírito e a mesma sede do divino e ambos anseiam por isto.

Agora se Ele pedisse mais água certamente seria mais fácil dá-la. Ele não pede mais água. Ele queria muito mais: que ela se tornasse participante de Sua história. Ele foi bem sucedido. Ela também. Agora esta mulher sem nome, sem muita importância aos olhos do mundo, se faz História Sagrada, se faz uma página da Bíblia. Ela se faz Evangelho, se faz História da Salvação. Seu gesto e seu diálogo passará de geração em geração até nós e depois de nós.

Penso que as vezes é tão difícil dar de beber a Deus quando Ele vem disfarçado de forasteiro, empoeirado, pobre, mendigo, faminto ou miserável.

Mas também é fácil dar de beber a Deus.

Basta ter um poço ou estar a beira de um poço.

Basta ter uma vasilha, saber captar a água e conservar esta água limpa. Mas não basta só isto.

É preciso entender que o poço não é particular. Não é só de Jacó, nem só dos Samaritanos.

A água cristalina que nasce da pedra não é só da pedra nem só da montanha; mas de Deus. Por isto é preciso reparti-la.

Certamente hoje a senhora é esta boa samaritana.