Escritos do Frei Rui
Francisco em Rimas
Francisco em Rimas
Frei Rui Guido Depiné o.f.m.
01. É de Assis. Sua terra natal.
Cidade predileta da nobreza,
Predomina o espírito feudal.
Francisco muito longe da dona pobreza.
02.Tudo se reduz a bens materiais:
Casas, castelos, palácios, fortalezas.
Nada valem os cuidados sobrenaturais
Só é feliz quem tem tantas riquezas
03. Pedro Bernardone, Dona Pica
Pais deste jovem sonhador
Festas, danças, serenatas identifica
Seu gênio, seu sangue de bom trovador .
04. Assis em guerra. É violenta.
Cidade contra cidade
O ódio explode. Aumenta
Pelo chão restos de atrocidade.
05. Francisco pouco valente
Logo cai prisioneiro
Péssimo combatente
À sua espera o cativeiro.
06. Liberto volta à família
A guerra ainda o desafia
Faz profunda vigília
Enfrenta a sua própria rebeldia.
07. Adeus ao mortal combate
Adeus ao campo de batalha
É melhor que o inimigo o mate
E o cubra com sua mortalha.
08. Confuso Francisco recua
Domina sua cega paixão
Contempla a luz da lua
Olha as estrelas na amplidão.
09. Na encruzilhada da vida
Alguém está à sua espera
Cicatriza a mortal ferida
Nasce uma nova primavera.
10. Uma voz divina
Perpassa todas as agruras
Francisco não imagina
O que viria das alturas.
11. Francisco livre para Deus
Ou escravo do Mundo?
Senhor, somos todos filhos teus
Cada dia, cada segundo.
12. Senhor, que queres que eu faça?
Seus olhos choram
O coração se despedaça
Suas mãos imploram.
13. De joelhos tanto suplica:
Ajuda-me, ó Senhor!
Sua mente se purifica
Sob o sol abrasador.
14. Lá, lá à beira do caminho
O irmão doente prostrado
Francisco todo mesquinho
Passa longe, mas, conturbado.
15. Volta Francisco devagarzinho
Pula do seu cavalo
Seu espírito é um redemoinho
Sente ele forte abalo.
16. Coberto de trapos
Membros devorados
Mal se mexe. Em farrapos.
Por todos abandonado.
17. Uma força estranha
Vem lá do alto.
Algo celestial o acompanha
Toma Francisco de sobressalto.
18. Um beijo na testa
Um abraço bem forte
Agora, tudo é festa
Tudo é vida. Tudo é morte.
19. É preciso morrer
Para a semente germinar
É preciso renascer
Para a vida se revelar.
20. Compreende Francisco sua decisão
O corpo reage. Se revolta.
Deus vem na contramão
Deus vai. Deus vem de volta.
21. Francisco prostrado
Seu manto lhe doa
Agora todo iluminado
Seu irmão ferido abençoa.
22. Um olhar para o horizonte
Como chegar até lá?
De passo em passo. Erguer a fronte
Nada deste mundo o impedirá.
23. Abandonada a Igreja de São Damião
Toda velha e em ruínas.
Sem ninguém. Sem capelão.
Uma luz desponta atrás da colina.
24. Francisco de joelho
De pé. Sentado no chão
Ouve um conselho
Do crucifixo de São Damião.
25. Francisco reconstrói a minha Igreja
De pedra e de gente.
Deus te proteja.
Mesmo triste ou sorridente.
26. O crucifixo é vivo
O crucifixo se mexe, fala
Francisco torna-se cativo
Deus a nós se iguala.
27. Francisco reconstrói a minha igreja
Ela está caindo
O olhar de Francisco lacrimeja
Deus lhe diz: Seja bem-vindo.
28. Francisco vai pelo mundo afora
Pede ajuda em nome de Deus:
Pedra, areia, cal, cimento. Ele chora
Todos ajudam, mesmo ateus.
29. Pouco a pouco é nova a igrejinha
Reconstruída, bela, resplandecente
Como se fosse uma rainha
Vinda das bandas do oriente.
30. Muita gente, muito povo
Muitos querem a Deus louvar
O templo se faz novo
O coração se faz altar.
31. Todo mundo se abraça
Cada um é simples irmão
Todos sentem a graça
Do crucifixo de São Damião.
32. Depois de tanta harmonia
Um grande tormento
Tudo o que era sinfonia
Tornou-se constrangimento.
33. Francisco entre a cruz e a espada
Lhe diz o Pai: És louco, és demente
Sua veste bem talhada
Lhe dá o filho de presente.
34. Francisco diante do tribunal
Pelo Pai, pelo juiz é levado
Senhor Bispo qual é o mal
Qual é o seu pecado?
35. Pedro Bernardone e semelhantes
Ouvi: esteja eu onde estiver
Deus será meu único pai, antes
Que surja outro pai qualquer.
36. Deus fala mais forte
Seu evangelho é como o sol
Ilumina sul e norte
Do nascente ao arrebol
37. Francisco se faz pobre
É radical: nada para si
Seu gesto é muito nobre
O Deus da Bíblia está aqui.
38. Francisco anda por todas as ruas
Humildemente vestido
Quantas noites! Quantas luas!
Em seus sonhos absorvido.
39. Agora: quanta alegria
Quanta fome
Quanta zombaria
Com o seu nome.
40. Estranho comportamento
De amigos de outrora
O que era divertimento
É escárnio agora.
41. Insultos e tantas maldições
De companheiros do mundo
Mostram dimensões
De um ser moribundo.
42. Francisco vivo
De tantas crianças recebe um pão
Uma fruta, uma flor. Um gesto afetivo
De profunda admiração.
43. A Todos diz: Paz e Bem!
Por onde anda semeia amor
Que a felicidade venha do além
Desça sobre vós a Bênção do Senhor.
44. Francisco precisa viver
Continua a mendigar
Seu jeito bom de ser
Não para de aflorar.
45. Muitos o chamam de Francisco
Outros o tratam de Irmão.
Ele insignificante como um cisco
Vai fazendo sua pregação.
46. Assim é o Evangelho do Senhor
“Amai-vos uns aos outros”. É a Lei.
Com muita simplicidade e ardor
Ensina o humilde Frei.
47. Adultos, jovens. Um olhar de criança
Grandes e pequenos
Transbordam de esperança
Diante de gestos tão serenos.
48. Este evangelho é a Boa Nova
Soa como um clarim
O espírito renova
“Vinde todos a mim”.
49. Deus é simples. É puro amor
Nasce numa estrebaria
Vai mostrando seu esplendor
Vivendo com José e Maria.
50. Tanta coisa nova
Tanta coisa bela
Francisco o espírito renova
Como a luzente capela
51. Agora, todos querem Francisco ouvir
Todos querem estar juntinho
Ele fala do porvir
Quando mostra o caminho.
52. Surgem os primeiros companheiros
Entre outros: Frei Pedro, Frei Junípero e Leão.
Não seriam simples aventureiros.
Viveriam a mesma vocação.
53. Demonstrando sua humildade
Pedem a bênção papal.
Deixariam à posteridade
Uma história de amor sem igual.
54. Viveremos em pobreza, obediência e castidade
Diz ao papa, Frei Francisco
Aprovada é a regra com cordialidade
Mesmo sabendo correr tanto risco.
55. Começa a vida dos Frades Menores
Onde viver? Onde morar?
Santa Maria dos Anjos e arredores?
Deus há de providenciar.
56. Rudes cabanas construídas
Início da epopéia franciscana.
Quantos sonhos, lágrimas, sorrisos, vidas
Nascem do abrigo desta choupana.
57. Francisco faz sorrir, chorar e pensar
Sua mente é como água cristalina
Possui a grandeza do mar
Movido por tanta força divina.
58. Abandona Clara seu castelo
Quer seguir o Irmão Menor
Não há nada tão belo
No universo ou a seu redor.
59. Nasce a Ordem das Clarissas
Vestirão trajes de penitência
A Francisco submissas
E a Deus toda providência.
60. Irmã Clara da nobreza feudal
Renuncia toda sua herança
Alheia a glória medieval
Corta-lhe Francisco a trança.
61. Muitas jovens imitam Clara,
Vivendo na extrema pobreza
Uma por uma declara
Buscar a verdadeira riqueza.
62. O Deus de Francisco encanta,
Grande sonho acalenta.
Sua inspiração tão santa
A vida fundamenta.
63. Sua mensagem é sementeira
Vai crescendo sem parar
Nasce a Ordem Terceira
Todos têm o seu lugar.
64. Todos querem imitar o santo
Casados e solteiros
Grande é o espanto:
Uma multidão! São companheiros.
65. Francisco prega: Paz e Bem!
Saúda a todos como irmão.
Amigos e estranhos tem
Idêntica inspiração.
66. Gente de todas as classes sociais
Compõe a Família Franciscana
São como espigas dos trigais
Que a mesma terra irmana.
67. O grande milagre acontece
Todos unidos em fraternidade.
Aves, homens e animais em prece
É o milagre. Uma só identidade.
68. Francisco sorridente fala
Todos ouvem misteriosa voz
O mundo inquieto se cala
Sem Deus é o homem, lobo feroz.
69. E o lobo de Gúbio faz tremer
Espalha na Vizinhança o terror
Está ali antes do amanhecer
Ouvindo agora o pregador.
70. Caminha ele com o santo
Atraindo todos os olhares
Cabisbaixo quase em pranto
Vencendo instintos seculares.
71. Não mais roubaria alimento
Na porta das casas só uivaria
Felizes com o seu aparecimento
Crianças o abraçam com alegria.
72. Vem aqui meu cãozinho
Ele tímido vinha
Dizia assim o vizinho
E o acariciava a vizinha.
73. Por um tempo o lobo não veio mais
Sumira criando forte emoção.
Seguiria o rumo dos ancestrais?
Não. Está morto junto de São Damião.
74. Está imóvel bem à porta da capela
Deitado como se estivesse dormindo.
É uma manhã tão bela!
O sol chegando. E ele partindo.
75. Deixa o irmão lobo uma mensagem
É possível transformar a vida
É muito breve a nossa passagem
Ontem nascendo. Hoje nossa partida.
76. Vem amigos dos quatro cantos do mundo
Deus plantara a boa semente.
Francisco sempre mais profundo
É cercado de tanta gente.
77. Antonio de Pádua. Antonio de Lisboa.
Ingressa nas fileiras franciscanas
Do alto Deus o abençoa
Cantam os céus hosanas.
78. Frei Antonio, santo milagroso
De envolvente pregação
Fala do Cristo glorioso
Abençoando o pão.
79. O presépio de Natal
Inventa Francisco um dia.
Estaria ali o homem, o animal,
José, o menino e a virgem Maria.
80. Reis magos, ovelhas e pastores
A natureza toda em festa
O anjo de tantos esplendores
Seu mistério manifesta.
81. Ama Francisco a solidão
Nas montanhas vai meditar
Deus é a sua grande paixão
Faz do Alverne, imenso altar.
82. É bem ao alvorecer
Francisco absorto naquelas plagas
Quanta luz! Quanta paz! É o amanhecer.
Prenúncio das santas chagas.
83. Estigmas sacrossantos
Lembram do Mestre crucificado
Monte Alverne em prantos
Francisco pelo chão prostrado.
84. Mãos, pés e o lado transpassados
O poverelo geme de dor
Perguntam os irmãos abençoados
Se não é Ele o Cristo Redentor?
85. Francisco dera toda sua vida
Em prol da Paz e do Bem.
Agora semelhante a uma avenida
De passo em passo vai para o além.
86. Última etapa de sua existência
Ele se doara de corpo e alma
Pouco tempo ainda. Sua sapiência
Reflete luz, paz e muita calma.
87. Sua mente de tanta bondade povoada
Para o alto se encaminha.
Vai em busca da nova morada
Semelhante ao vôo da andorinha.
88. O corpo de Francisco tão macerado
Fizera ele tanta penitência
Por Deus muito apaixonado
Ao longo de sua existência.
89. Francisco ainda tem forças para cantar
Vislumbra Assis. Quanta beleza!
Paira um mistério no ar
Superior a toda natureza.
90. Ele perde gradativamente a visão
Cego compõe o Cântico das Criaturas
Fala da água, da terra, do sol irmão
Do ar, do fogo, das estrelas nas alturas.
91. Flores, frutos, bendizei ao Senhor
Irmã morte venha! Minha vida é tua.
O universo é Obra do Criador
Depois, no além, a vida continua.
92. Semeara Francisco a paz e o perdão.
A paz nasce no campo e na cidade.
Todo mundo é amigo, irmão
Ali está a verdadeira felicidade.
93. Francisco, agora, na Casa do Pai.
Outubro. O corpo mostra fragilidade.
Sem um lamento. Sem um ai.
Francisco a um passo da eternidade.
94. Deitado na terra, no chão.
É o mais pobre e o mais feliz dos mortais.
Tudo é confraternização
Todos ouvem acordes celestiais.
95. É a transcendental subida
Legiões de anjos à espera
Francisco entrega sua vida
O inverno passou. É primavera.
96. Francisco olha pela última vez
A seus pés uma grande fraternidade
Não obstante sua pequenez
Transmite tanta grandiosidade.
97. Partirei, mas, fica o Testamento.
Vou voltar à casa paterna.
Não há outro mandamento
Para entrar na Vida Eterna
98. Seu rosto brilha como sol
Vai morar na celestial choupana
Francisco adormece como o arrebol
Se despedindo da Família Franciscana.
99. Toda a Coorte Celeste de plantão.
Os portais do céu se abrindo
Mais leve que um floco de algodão.
Francisco, disse-lhe Deus: venha vindo.
100. A multidão os olhos ao céu levanta
Sabendo estar muito perto a despedida.
É a jornada mais sacrossanta
Onde Deus fará a acolhida.
101. Esta é a Terra Prometida
Para ti e todos os filhos teus
Francisco, foi a tua grandiosa vida
Que te levou ao trono de Deus.
Amém!
Frei Rui Guido Depiné – o.f.m.
Capela São Roque
Piraquara - PR