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Escritos do Frei Rui

Francisco de Assis

Francisco de Assis

Frei Rui Guido Depiné o.f.m.

Outubro 2006

Francisco, Francisco, uma voz te chama:

Vem e segue-me!

Onde há trevas, leve a luz.

Na vida tudo passa.

Passa a fortuna;

passa a miséria;

passa o poder;

passa a servidão;

passa a ciência;

passa o desconhecimento;

passa a liberdade;

passa a escravidão;

passa a Catedral;

passa o homem informe e vazio.

A humanidade toda se esvai.

Tronos e impérios vêm abaixo.

Templos, castelos e fortalezas desaparecem.

Muros e muralhas em pó se desfazem.

Florestas e mares se apagam.

Passa a brisa;

passa o tufão;

passa a primavera;

passam todas as formas de vida;

passam tiranos, déspotas e soberanos.

Culturas, raças, povos e línguas passam.

Passam as flores;

as borboletas;

os pardais;

a palavra;

a poeira.

A honra e glória passam.

Nada fica no mesmo lugar.

Ilhas e continentes submergem.

Acorda Francisco!

O tempo se move.

A manhã se levanta.

O sol nascendo.

A noite das trevas iluminando.

Francisco, Francisco, a minha igreja de pedra caindo,

minha igreja de gente em ruínas.

Senhor, Senhor, que queres que eu faça?

Francisco, Francisco, o que é melhor:

a Deus servir ou

do mundo escravo ser?

Francisco, o sol vai nascendo.

Onde há trevas, leve a luz.

Francisco, uma voz te chama:

Vem e segue-me!

Francisco surdo mudo.

Francisco a vagar...

Devagar,

Na estrada sem direção.

Francisco desconhecido,

Francisco ninguém,

sem nome,

sem projeção,

Francisco recém-nascido,

Francisco menino,

Francisco Joãozinho,

Francisco a caminho,

Francisco sem destino,

Mas, Francisco em gestação.

Francisco adolescente,

Francisco das serenatas e cantigas,

Francisco jovem,

altaneiro,

nobre,

ambicioso,

todo poderoso,

conquistador.

Francisco da guerra,

do espírito feudal,

da espada e da lança mortal.

Francisco da batalha,

Francisco da mortalha,

Francisco da pobreza mental.

Da pequenez medieval,

dos castelos, palácios,

das torres e fortificações.

Francisco informe e vazio.

Sem alma,

sem espírito,

sem coração.

Mas, Francisco em gestação.

Francisco da prisão,

do cárcere de pedra,

do cárcere escuro e frio.

Francisco da lança quebrada,

da couraça luzente,

da espada sem mão,

da cabeça sem tronco,

do inimigo ensangüentado,

morto desfigurado,

caído no chão.

Não era ele também irmão?

Prá que perguntar?

Francisco da armadura dourada

sem valor nenhum.

Francisco do deserto,

do mundo das trevas,

do mundo insano, injusto e cruel.

Francisco altivo.

Suserano,

Francisco abastado,

herdeiro da casa paterna,

da fortuna maldita,

de tantos bens.

Quantos bens?

Que bens...?

Bens que a traça corrói,

que os ladrões carregam,

que o tempo consome.

Francisco da outra batalha.

Da batalha interior.

Francisco guerreiro,

vassalo

sem armas na mão.

Senhor, Senhor, que queres que eu faça?

“Vá para Assis.

Reconstrói a minha Igreja”,

de pedra e de gente.

Francisco obediente,

cavaleiro,

seresteiro,

precursor.

Francisco em gestação.

Onde há ódio, leve o amor.

Francisco risonho,

cativo,

sonhador,

na outra margem,

mais perto,

do lado de cá.

Francisco de São Damião prisioneiro.

Agora, simples pedreiro,

de tantos irmãos companheiro,

de Pedro, de Junípero, de Antonio, de Frei Leão.

Francisco do pai Bernardone e da mãe Dona Pica,

mas, na contramão.

sem ouro, nem prata.

sem um tostão.

De pé descalço.

De rua em rua.

De passo em passo.

De porta em porta.

De casa em casa sem portão.

Francisco da calçada,

sentado no chão,

comendo migalhas,

do abençoado pão.

Bebendo água do ribeirinho,

na concha da mão.

Francisco do pobre doente,

mendigo chagado,

por todos abandonado,

de Deus a grande revelação.

Francisco sem ouro nem prata,

sem nada na mão.

Francisco louco?

Francisco demente?

Pergunta o Cardeal.

E ele recebe a bênção papal.

Francisco de volta,

caminheiro,

Francisco da fome,

da esmola,

da sede ardente

Francisco contente,

Francisco sorridente,

Vivendo sua paixão.

Francisco sem nada na mão.

Francisco do tijolo,

da reconstrução,

Francisco da chacota,

do espanto,

Francisco do deboche,

da compaixão,

Francisco da humilhação,

Francisco de tanta admiração.

De tantas cantigas e serenatas.

Francisco do beijo e do abraço diferente.

Francisco da veste penitente.

Onde há dúvidas, leve a fé.

Francisco todo diferente,

livre arauto cantor,

Francisco trovador,

Francisco de toda gente,

Francisco sonhador.

Francisco do presépio,

da paz das alturas,

do Cântico das Criaturas,

do lobo de Gúbio,

feroz e fraterno.

Francisco do Alverne,

Francisco de Clara,

de Roma,

da Idade Média,

do Milênio Terceiro,

de todos os tempos,

de todo mundo,

do mundo inteiro.

Do Oriente e Ocidente,

Francisco dos arredores,

dos Frades Menores,

Francisco de Assis,

Francisco de toda gente,

agora valente guerreiro,

sem armas na mão,

Francisco perdido e achado,

aventureiro,

conquistado,

conquistador.

Francisco sol nascente,

Francisco das tapeçarias,

das coisas preciosas,

dos tempos de outrora,

da mãe terra,

da água pura,

das estrelas cintilantes,

de tantas flores,

dos pássaros multicores,

Francisco de tantos amores,

de tantos irmãos.

E agora, Francisco?

Despojado de tudo,

Francisco agora sem eira nem beira.

Frágil,

poverello,

sereno,

faminto,

sedento.

Se aquieta, como ave ante o vento.

Francisco leve, mudo, sol poente.

Prostrado, cego.

Seu rosto sem visão.

Sua face um clarão.

Dorme, Francisco.

É o último sono.

O corpo não lhe pertence mais.

Tudo é libertação.

Transformação.

Transfiguração.

Francisco sem nada,

sem nada nas mãos,

sem as coisas do mundo,

sem a vida corporal,

deitado no chão,

como rasteira vegetação,

como água do temporal.

Francisco assim se fez:

Nasceu.

Chegou.

Viveu.

Morreu.

Partiu.

Ficou.

E agora Francisco?

O Mundo se iluminou,

Porque a Deus tanto amou!

Amém!

Frei Rui Depiné o.f.m.

Capela São Roque

Piraquara - PR

Outubro de 2006.