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Escritos do Frei Rui

É preciso contar estrelas

É preciso contar estrelas

Frei Rui Guido Depiné o.f.m.

É Natal.

Duas horas da manhã.

Alguém bate à minha porta.

Não imagino quem seja.

"Talvez um bêbado ou um desesperado".

Tudo muito estranho...

Olho pelo visor.

Identifico: um paciente da psiquiatria.

Um homem escuro, alto, forte, voz firme, de boas maneiras.

Abro a porta: "O que o senhor quer? Vá para o pavilhão. Devem estar à sua procura".

Em tom cordial ele exclama: "O seu padre, vem cá, quero que conte as estrelas para mim".

Nunca  me passou pela cabeça, contar as estrelas.

Olhei de relance para o firmamento: astros ao infinito iluminando as trevas. Profusão de lantejoulas, que só Deus contaria.

Tarefa impossível a um simples mortal. O homem insistiu: "Conte as estrelas para mim".

Está bem! Vamos contar juntos. Vamos dividir o céu em duas metades. O senhor conta à direita e eu conto à esquerda. Não tardei. "Já contei tudo: as minhas e as suas também".  Indagou ele: "Quantas são?"

Cento e quarenta milhões e cento e vinte mil estrelas visíveis, fora as escondidas.

"Contou certo?".

"Sim, pode conferir".

Sorrindo, ele pôs a mão no meu ombro e disse: "-Pelo menos um homem no mundo contou as estrelas para mim".

Nunca recebi tamanho elogio. Isto me fez pensar: é tão fácil contar as estrelas... Por que nós não contamos as estrelas para os outros? Me ensinou o homem da psiquiatria, o que eu não aprendera nos bancos da escola: Contar as estrelas, não era simplesmente contar as estrelas... Era dar um pingo de atenção ao outro.

Por todos aqueles que contam as estrelas...

Obrigado, Senhor.