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Escritos do Frei Rui

E disse Francisco

E disse Francisco

Frei Rui Guido Depiné o.f.m.

Disse um dia, Francisco ao irmão vento:

Fala-me de Deus por onde passas.

E ele sacudindo as árvores por um momento,

Espalhou flores por caminhos e praças.

Disse um dia, Francisco à irmã água:

Fala-me de Deus com a tua liquidez.

Disse ela: Criei o mar, lá tudo deságua.

Faço a semente germinar, apesar da aridez.

Disse um dia, Francisco ao Fogo irmão:

Fala-me de Deus com tua força misteriosa,

Estou no âmago da terra, em cada coração,

Movo o universo. Faço desabrochar a rosa.

Disse um dia, Francisco à Mãe Terra:

Fala-me de Deus com tuas flores e frutos.

A todos acolho e sustento, da ave à fera,

Das criaturas mais belas, aos seres mais brutos.

Disse um dia, Francisco à irmã lua.

Fala-me de Deus com teu clarão.

Disse ela: ilumino as trevas, o abismo, a rua

Incendeio de luz o breu da escuridão.

Disse Francisco, fala-me de Deus sol nascente

Com tantos raios de luz e calor.

Tu que acordas de manhã e dormes no poente

E em bilhões de anos não perdeste o fulgor.

Às estrelas, disse um dia Francisco:

Fale-me de Deus com vosso manto de ouro.

Elas responderam: somos menor que um cisco,

Diante de Francisco com seu tesouro.

Francisco ficou quieto, pasmo, mudo.

Disse a si mesmo: Francisco, fala-me de Deus.

A voz não veio...Sussurrou... Meu Deus e meu tudo

Faça-me o menor de todos os filhos teus.

Chorando e sorrindo disse à irmã morte.

Bem-vinda, bem-vinda sejas entre nós.

Aqui vieste de passagem ou lançar a sorte...?

Não! – Vim buscar Francisco. Deus quer ouvir a sua voz.

Francisco a abraçou. Disse à irmã morte:

Fala-me de Deus, tu que és o grande tribunal.

Sou justa e fiel diante do franco e do forte.

Levo a todos o recado da sentença final.

Finalmente, disse ele: Fala-me de Deus

Cântico das Criaturas:

Criaturas que a Deus assistis.

Ele respondeu: “Glória a Deus nas alturas!”

Assim disseram os anjos.

- Amém. Disse Francisco de Assis.