← Todos os escritos

Escritos do Frei Rui

Caminhando com Maria

Hoje, 08 de setembro de 2021, é Dia da Padroeira de Curitiba, Nossa Senhora da Luz de Pinhais. Nossa querida Mãe Maria. Nesta emocionante homilia o Frei Rui nos faz refletir sobre a caminhada de Maria neste mundo. Um exemplo de fé e de coragem para todos.

Nossa Senhora da Luz de Pinhais, rogai por nós!

A sua bênção. Frei Rui. Muito obrigada por tudo.

Caminhando com Maria

Frei Rui Guido Depiné o.f.m.

Caminheiro, não existe caminho. O caminho se faz.

Nós fazemos todos os dias a experiência do caminho e da caminhada. Nós nem saberíamos mais viver sem isto. Tão importante é o caminho em nossa vida.

O que significa caminhar? O que significa não poder caminhar?

Caminhar significa tanta coisa. Significa locomover-se, movimentar-se, deslocar-se. Ir a um destino, a um endereço, ir em uma direção. Ir de um ponto ao outro. Vencer distâncias, obstáculos. Alcançar metas, objetivos, horizontes.

Caminhar é seguir adiante e ir além de si mesmo. Não estar preso com os pés ao chão, plantado como se fosse uma árvore ou uma pedra. Caminhar significa sair do lugar. Ser como água limpa que desce da nascente das montanhas. A água é livre. Não conhece obstáculos. Conquista o mundo. Nós também devemos conquistar o mundo que nos governa e nos sustenta. Todos nós dependemos do mundo. Caminhar é ser como a águia que busca as alturas.

O que significa não caminhar? Significa muitas vezes ser inválido, deficiente, não ter pés. Não ter mobilidade, condições físicas. É o caso de uma pessoa gravemente enferma. De uma criança de colo. De alguém muito idoso. De alguém em cadeira de rodas, etc. Muita gente gostaria de caminhar e não pode caminhar.

Por que caminhar? Caminhar faz parte da dinâmica da vida. O corpo exige movimento, exercício, ginástica; senão se atrofia, se desorganiza e, muitas vezes, perece. Caminhar é vida mais plena. Mas não caminhamos apenas com os pés. Caminhamos também com a alma, com o espírito que organiza a vida. Nos governamos a partir do nosso mundo interior. Somos o que pensamos.

Por que caminhar? Devemos conquistar os bens que sustentam a vida. Que estão perto de nós ou longe de nós. Estes bens podem estar a um passo ou muito longe de nós.

Conheço gente que todos os dias vai trabalhar em Paranaguá. A vida é uma construção permanente. Não está pronta, acabada, para ninguém. Impossível a vida sem os incontáveis caminhos e sem a caminhada. Quanto deve caminhar um camponês para produzir um trigal e chegar ao pão? Quanto deve caminhar um atleta para alcançar o Podium? Por que caminhos devemos caminhar? Por múltiplos caminhos. A vida impõe avenidas, caminhos de pedra, de flores, de lama, de chão batido, caminhos longos, curtos, largos, estreitos, íngremes e perigosos. Às vezes, também, por caminhos sem saídas (UTIs, hospitais e cemitérios). Muitas vezes não há escolha.

Às vezes o caminho é cansativo, estressante. Frequentemente vemos em São Paulo inundações e o trânsito, como disse o repórter, se transforma num inferno: 5, 6, 7 horas para chegar em casa mas, é bom lembrar que há dificuldades maiores do que isso. Quanta gente amputou os pés? As pernas? Quanta gente nasceu sem condições mínimas de andar? Nunca deu um passo e nunca vai andar.

Conheço gente que ficou 40 anos sobre um leito. Andava. Depois de um acidente nunca mais andou. Como o Cristo gostaria de ter voltado para Nazaré quando preso e crucificado e não pôde mais voltar.

Você ... caminhe enquanto é possível caminhar porque virá o dia e a hora em que será dado o último passo. Então o caminho acabou. Uma simples pergunta: você já agradeceu à Deus pelos milhões de passos que já deu? E se Deus dissesse: “Daqui para frente quem anda não vai mais andar e quem não anda vai andar? ” Como ficaria nossa cabeça, o nosso mundo interior? Imagine-se você, agora, dependente de tudo e de todos. Agradeça à Deus se você tem os pés e as condições de andar, quando tanta gente não tem este privilégio e gostaria de estar em nosso lugar.

A proposta desta celebração litúrgica não é simplesmente caminhar, mas sim caminhando com Maria.

Foi fácil a caminhada de Maria? Deus a acumulou de infinitos benefícios? Deus a carregou nas palmas das mãos? Deus a conduziu por um caminho de flores? Como foi a caminhada de Maria? Uma caminhada humilde.

Não tinha Maria a vaidade das mulheres abastadas, poderosas, influentes e sábias de sua época. Maria não nasceu num Palácio, nem viveu na Corte. Era uma simples doméstica de Nazaré. Fazia parte do povo escolhido que esperava pela vinda do Messias. Fez as grandes coisas que uma mãe de família fazia: cuidou de um lar, de uma criança, de José da Carpintaria. Maria lavou o chão, lavou roupa, acendeu o fogo, preparou o alimento, repartiu o pão, enxugou louça, varreu casa, pôs a mesa, buscou água na fonte. Trabalhou de empregada na casa de Isabel, onde exclamou: “O Senhor fez em mim maravilhas, Santo é o Seu nome. Maria acompanhou o seu filho desde a gestação até a Páscoa.

Maria fez uma caminhada de fé.

Sem entender a saudação do Anjo “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo...”; ela poderia ter dito: “Não. Não tenho tempo. Não tenho jeito. Não tenho cultura nem condições”. Poderia ter dito: “por favor, vá bater na casa da vizinha. Lá tem outra Maria. Ela é mais esperta, mais sábia, mais capaz e muito mais inteligente do que eu. ”

Disse Maria: “Faça-se em mim segundo a Sua vontade”.

Dúvidas! Incertezas! Medo! Como seria sua gravidez?

Que segurança humana teria Maria por parte de Deus? Que segurança teria Maria com aquela criança nascida na gruta de Belém, pobre, faminta, chorosa, frágil, pequenina igual a todas as crianças do mundo? Onde estava sua divindade? Não tinha nenhum sinal externo que o identificasse como o Messias.

A saudação do anjo não seria uma alucinação, um sonho vago, um delírio, uma fantasia? A caminhada de Maria é cheia de fé ao longo de toda a trajetória de Jesus Cristo que vai se revelando o Filho de Deus.

A caminhada de Maria é caminhada de uma mulher despojada. Livre de tudo. Livre para Deus.

Nenhum bem deste mundo impediu Maria de ser Maria de Nazaré. Quantas vezes deixou tudo para seguir os planos de Deus. Deixou a casa, a carpintaria, José, Nazaré sua cidade, seu próprio Filho em determinados momentos. Quantas vezes Maria esteve na Sinagoga, no Templo, nas Bodas de Cana, na casa de Isabel e, certamente, incontáveis vezes junto de seu Filho antes e durante sua vida pública. Maria, uma caminhada de despojamento total. Livre para Deus.

Maria, uma caminhada corajosa e dolorosa.

Disse sim ao anjo sem perguntar quanto isto lhe custaria: “Faça-se a vontade de Deus”.

Maria atravessou montanhas, vales, desertos. Sentiu desconforto. Calor de 40, 50 graus. Sem sombra. Sem abrigo. Sem hospedarias ao longo do caminho. Enfrentou o perigo de animais selvagens, de salteadores. Por isso os peregrinos caminhavam em caravanas quando iam a Jerusalém. Maria fez caminhadas de mais de 300 km. Depois a volta, outro tanto.

Maria enfrentou o ódio de Herodes. Ele matou todas as crianças de 2 anos para baixo tentando incluir o próprio Cristo nascido.

Herodes mandou matar João Batista, o decapitou. Mandou matar toda sua família. Certamente mandou matar Jesus Cristo também.

Maria, mulher corajosa que fez uma caminhada dolorosa. Maria foi até o Egito para salvar seu Filho. E o salvou. Maria diante do Cristo traído. Vendido. O Cristo valia 30 moedas de prata. O preço de um escravo. Maria diante do Cristo condenado, preso, escarnecido, açoitado, flagelado, coroado de espinhos, carregando a cruz aproximadamente 6,5 km no meio da multidão, de conhecidos, de amigos e inimigos. Maria diante do Cristo, pregado na cruz, suspenso, desfigurado, do Cristo morto ensanguentado e sepultado. À primeira vista tudo acabou. Jesus fora vencido pelo mundo das trevas. Maria uma mulher corajosa – muito corajosa.

Maria, uma caminhada profética.

Deus bate na porta de um carpinteiro e de uma doméstica para vir ao mundo. Deus se serve de Maria para se revelar. Maria abre as portas de sua casa e da história da salvação. Maria canta: “O Senhor fez em mim maravilhas. Santo é o Seu nome. ”

Maria se torna mãe do Cristo, Mãe dos Apóstolos, Mãe da Igreja e Mãe do Povo de Deus. Maria, uma caminhada profética.

Não foi quem traiu, o certo. Não foi quem lavou as mãos quem venceu. Não foi quem mandou matar quem triunfou. Foi O Justo condenado na sexta-feira santa quem ressuscitou.

Maria, uma caminhada triunfante.

Toda sua humildade.

Todo seu esforço maternal.

Toda sua fé.

Todo seu sofrimento humano.

Toda sua coragem.

Toda sua ternura.

Toda sua dedicação.

Toda sua paixão levou à madrugada da Páscoa.

Fica a pergunta: Vale a pena caminhar com Maria?

Nossa Senhora da Luz de Pinhais