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Homilias

Caderno 2 Homilia 14 Finados 1995 A morte e o tempo

1995

Caderno 2

Homilia 14

Finados

1995

A morte e o tempo

A vida nos faz pensar,

a morte nos faz pensar,

Deus nos faz pensar.

Finados que tem um sentido tão diferentes das outras palavras do nosso dicionário.

Finados, mais uma palavra mas que expressa uma verdade universal muito forte, um acontecimento programado, uma data para cada um de nós.

Um acontecimento universal que marca a vida de todo mundo pela morte.

Finados lembra vida que foi, morte que veio.

Finados lembra cemitério, sepultura, antepassados.

Finados lembra o fim de uma vida, o fim de uma caminhada, de uma existência, o fim de alguém, o fim de um sonho, de tantos planos e projetos para este mundo, ainda nosso, de cada dia.

Finados nos traz lembranças, recordações, saudades, emoção, pranto, as vezes choro, lágrimas, sentimentos de dor e de separação.

É o encontro, o reencontro com a história, com o passado, com alguém da nossa casa, da nossa família, com alguém igual a nós, e que hoje não pode mais ser visto, tocado, ouvido porque foi embora para sempre, sem nenhuma chance de aqui voltar, dar um sinal de vida e se reencontrar conosco.

O cemitério, esta quadra diferente das outras quadras, esconde a vida e a morte, o passado e o presente, nos aguarda pacientemente em termos de amanhã, em termos de futuro.

Um futuro próximo ou talvez distante.

Mas há um lugar obrigatório para cada um, é apenas questão de mais ou menos tempo.

Tempo

O que vem a ser o tempo? Os homens organizaram o tempo em segundos – minutos – horas – dias – noites – semanas – meses – anos, séculos, milênios. O relógio da vida não para – e os ponteiros apontam sempre para a eternidade.

Tempo é este espaço que vai do nascimento ao túmulo.

Cada um vive o suficiente para se apresentar bem ou mal diante a eternidade.

Tempo bem vivido constrói a vida e lhe confere um sentido sagrado e um valor sobrenatural.

Tempo mal vivido desestrutura e desordena a vida.

Basta uma doença grave para modificar todo um comportamento.

Tempo perdido não volta mais.

Muitas vezes quanto tempo perdido em futilidades, em ninharias, em coisas banais, em intrigas, ódios, conflitos que deixam sequelas graves.

O tempo não para nem pode parar.

Cada dia que passa nos aproxima mais e mais da nossa própria sepultura. Chegará a hora.

Trocaremos tudo o que existe neste mundo – a casa – o convívio com os familiares, com os amigos, a nossa profissão, para habitar entre os mortos. Seremos despojados de tudo: dos bens, dos nossos títulos, da segurança, do mundo dos documentos, até mesmo da roupa do nosso corpo.

Um dia a mais na nossa vida é um dia a menos por aqui nesta Terra, na nossa casa, no nosso lar, no nosso trabalho.

A morte é feita para todos e não escapa ninguém.

Se há um dia programado para se chegar a este mundo, não há um dia certo, fixo, programado para daqui partir.

Todos partirão. É passagem obrigatória daqui para lá, para a outra margem. Ninguém fica do lado de cá. Nem o Cristo ficou, conforme o Evangelho de hoje.

Morte – ela é universal. Atinge tudo e todos. Micro-organismo morre, a formiga e o dinossauro. É a lei da vida.

A morte não é castigo – é o fim de um ciclo biológico que se esgota pela própria natureza, pelo limite da matéria.

Não há como viver sempre neste mundo. A morte é irmã gêmea da vida, cabe todo mundo.

No cemitério há recém-nascidos

- há crianças

- jovens

- gente adulta

- gente idosa

- há ricos - há pobres

- justos – pecadores

- crente – descrente

- agnósticos – ateus – indiferentes

- cristãos – pagãos

Não nos é dado escolher: viver sempre ou morrer. A morte é algo programado.

Gente de todas as classes, raças, línguas e nações. Ela se impõe e acabou. A morte não se pergunta pela vida!

O cemitério não é ponto facultativo – é passagem obrigatória. Mas não é o fim. É para quem viveu sua fé – É para quem jogou sua vida fora.

Se a vida é um permanente mistério, a morte também é.

Não sabemos o dia nem a hora. É melhor assim.

Não sabemos quando – onde e como iremos morrer.

Quando? Será logo? Daqui há pouco? Bem mais tarde?

Onde? Em casa – fora de casa – longe de casa.

No trânsito – num hospital – na rua – num passeio?

Não sabemos.

Como? Iremos morrer

- morte natural

- por velhice

- por doença grave

- por acidente

Será morte suave, violenta, rápida, lenta, feliz ou sofrida?

Nada sabemos.

O cemitério é o limite entre dois mundos – o de cá e o de lá. E por mais que Ele fale de mortes, de cadáveres, Ele transmite um sonho de esperança.

Por trás de cada sepultura não está apenas a sombra e o fantasma de um morto, de alguém que se foi mas a promessa bíblica da vida eterna e da Terra Prometida.

Por trás do sepulcro emprestado ao Cristo por José de Arimateia está a madrugada da Páscoa.

Vale a pena lutar por tudo isto.

Todo aquele que crer em mim viverá para sempre.