Depoimento
Wanderlei Garcia Donini
FREI RUI: UM GRANDE HUMANISTA.
Administrador de Empresas e Economista, com Mestrado em Gestão de Ciência de Tecnologia em Saúde, pela Fundação Getúlio Vargas Vargas/Rio de Janeiro - Wanderlei Garcia Donini é Membro Instituidor da Fundação Pró-Hansen. Trabalhou na Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ por mais de 25 anos, coordenando a área de Planejamento e Projetos de Ciência e Tecnologia, também trabalhou no Ministério da Saúde tendo participado de vários programas e projetos de envergadura nacional, cabendo destacar o Plano Nacional de Sangue e Hemoderivados e o Sistema Nacional de Vigilância Toxico-Farmacológica. Como tal, envolveu-se com o fomento e apoiou várias Fundações e Instituições de Pesquisas em C&T e entidades Filantrópicas, em todo país, com destacada atuação no terceiro setor. Dentro deste contexto, ele conheceu Dr. Ruy Miranda, como dirigente do CELSA – Centro de Estudos Leprológico Souza Araújo da Universidade Federal do Paraná, com quem idealizou - nos fins da década de 80 - a criação da Fundação Pró-Hansen e, desde aquela época, atua voluntariamente como Membro do seu Conselho Curador, tendo ocupado também cargos da Diretoria Executiva. Através do Prof. Ruy Miranda, Donini conhece o Frei Rui Guido Depiné o.f.m.
Gentilmente, ele fornece o seu depoimento:
“No final da década de 1980 houve um recrudescimento da hanseníase no Brasil. Como era uma enfermidade de grande preocupação das autoridades sanitárias/Ministério da Saúde e, particularmente da equipe Cientifica da FIOCRUZ, atuando nas áreas de Planejamento e Projetos de C&T da própria Fiocruz, acabei me envolvendo com esta problemática e li muito sobre este assunto. Entre estas leituras me chamou a atenção (na época) uma matéria publicada num Jornal de grande circulação nacional, onde retratava epidemiologicamente o quadro da Hanseníase no Brasil e fazia menção a alguns Centros de Estudos que vinham trabalhando neste tema. E nesta reportagem fazia referência a um trabalho de pesquisa e assistência aos hansenianos que vinha sendo desenvolvido pela Universidade Federal do Paraná/CELSA – Centro de Estudos Leprológicos Souza Araújo, sob a coordenação do Prof. RUY MIRANDA, a quem tive a oportunidade de conversar sobre o referido tema.
No Natal daquele ano (1985/86), vim visitar minha família no Paraná e fui me avistar e conhecer melhor o Prof. Ruy Miranda, de modo a me inteirar sobre seus trabalhos de pesquisa que vinha desenvolvendo no âmbito dessa área. Ele tinha dois Projetos de pesquisa em andamento no âmbito do CELSA, tratando da questão da Hanseníase.
Então, conversei demoradamente com o Prof. RUY e sua Equipe e acabamos elaborando um Projeto de Pesquisa a ser executado pelo CELSA, com apoio/financiamento – na época – da FIPEC - Fundação de Incentivo a Pesquisa Técnico-Científica do Banco do Brasil. O Projeto contemplava a aquisição de vários equipamentos laboratoriais (autoclave, centrífugas, microscópios, etc...), além da aquisição de insumos necessários ao desenvolvimento da pesquisa. O Projeto foi aprovado pela FIPEC e os recursos foram destinados por Convênio a UFPR/CELSA. Com a experiência advinda da execução deste Projeto com a FIPEC e por questões de ordens burocráticas com a Universidade e a nova equipe do CELSA - (que ambicionava dar prosseguimento às atividades de pesquisa, ensino e ampliar a assistência) –, fomos levados a pensar em instituir uma Fundação para ter mais autonomia na gestão dos fundos captados, ampliando assim o espectro de atuação institucional do CELSA. Ficamos cerca de dois anos, analisando, discutindo e trocando ideias com a equipe acerca de instituir a Fundação. Eu me propus e redigi a primeira versão do Estatuto do que viria ser a Fundação Pró-Hansen. Assim planejamos e, nos meados de 1990, aprovamos o Estatuto e criamos a Fundação.
Como (na época) vários programas sob a coordenação da FIOCRUZ tinham a denominação iniciada com a palavra PRÓ (PRÓ-IMUNO; PRÓ-FARMCAO; PRÓ-CONTROLE; PRÓ-SANGUE....) decidimos que o nome da Fundação poderia feito em uma justa e merecida homenagem ao descobridor do bacilo de Hansen, o médico norueguês Dr. Gerhard Armauer Hansen. Posto a consideração da equipe, resultou em aprovação por unanimidade pelo nome de FUNDAÇÃO PRÓ-HANSEN.
De certa forma – há estudiosos que digam – que a história da recidiva/recrudescimento da hanseníase, em vários países (especialmente do terceiro mundo) tem a ver com uma diretriz da OMS, que alcançou os países membros, onde recomendava a não obrigatoriedade de internação dos pacientes com mal de Hansen (passaram a ser atendidos ambulatorialmente) e o fim da segregação dos hansenianos (em leprosários...) não mais separando-os mais das suas famílias e da sociedade. Com isso, também muitas das equipes especializadas que atuavam especificamente no cuidado desta enfermidade foram desmobilizadas, bem como os institutos e centros de atenção especializados também foram sendo gradativamente fechados. Assim, todos os Leprosários foram desativados. Não havia mais local específico para cuidar/internar os enfermos e não estavam sendo preparados novos profissionais para atuar nesta área. Quinze a vinte anos depois, dessa política (digamos de desinternação e da segregação dos hansenianos) começou o recrudescimento da doença. Foi nessa época (década de oitenta) que uma equipe de pesquisadores da FIOCRUZ lançou novamente seu olhar sobre esta questão. No Brasil, o Paraná figurava – epidemiologicamente – entre o quinto e sexto lugar na prevalência da Hanseníase. Entre os 399 municípios na época, mais de 50 tinham indicadores muito superiores aos preconizados pela OMS, como aceitáveis para a Saúde Pública, ou seja, menor ou igual a 1 caso de hanseniano para cada dez mil habitantes.
Considerando esta breve retrospectiva histórica da evolução da enfermidade e das políticas públicas houve por bem criar a Fundação PRÓ-HANSEN – na época com o apoio da FIOCRUZ e da própria FIPEC. Em julho de 1990, sob a liderança do Prof. RUY MIRANDA criamos a FUNDAÇÃO PRÓ-HANSEN. Inicialmente, fiquei na Diretoria Executiva da Pro-Hansen, como Assessor de Planejamento e, atualmente passados mais de 30 anos continuo contribuindo voluntariamente, com membro do seu Conselho Curador, sendo o único dos Instituidores vivo (dos 07 que instituíram a Pro-Hansen em julho 1990).
Conheci o Frei Rui quando estávamos compondo a Diretoria Fundação, por apresentação do Prof. RUY MIRANDA e da Sra. IVONE TOD DECHANDT. Desde do primeiro contato com o Frei RUI percebi que estava diante de uma pessoa singular, humanista e de grande apego às causas sociais. Ele teve um grande apreço por mim e eu por ele, acabamos trabalhando juntos ao longo de mais de 25 anos. Éramos muito bons amigos; dele sempre recebia muito apoio; nunca me faltou apoio e estímulo de parte do Frei RUI. Nas reuniões da Pró-Hansen sempre conversávamos muito, normalmente a sós (separados numa salinha da diretoria). Frei Rui achava que eu me expressava muito bem; escrevia bem e verbalizava bem os assuntos tratados. Pena que eu me encontrava com ele umas duas ou três vezes por ano, normalmente nas Reuniões do Conselho e nas Festas de Natal e quando ia lá no São Roque. Ele fazia lindas orações de final de ano nas reuniões da Fundação (antes um pouco do Natal) – e, sempre trazia um pequeno coral - duas ou três pessoas que cantavam e tocavam músicas natalinas, o que dava para o nosso ambiente e para toda equipe da Fundação (Conselheiros, Diretoria Executiva e Convidados), um semblante muito lindo e de feliz convívio em torno de uma causa. Uma linda herança que o Frei Rui nos deixou: sempre fazer uma oração antes de iniciar as nossas reuniões da Fundação. Era uma troca de boas energias, com o Frei RUI. Empatia total. Uma boa relação espiritual. Eu sou cristão, católico, e encontrava no Frei Rui palavras de ânimo, estímulo para nunca desistir; que não deveríamos esmorecer da luta em prol dos hansenianos. A Pró-Hansen – dizia ele - tem uma missão nobre e relevante. São muitos doentes que foram e são atendidos por esta Fundação.
O Frei Rui sempre trazia uma palavra de incentivo, de carinho e de apoio. Ele era um ser de luz. Um grande humanista. O que sempre me chamou atenção no Frei Rui era seu humanismo. Ele era de um lado, um grande Cristão e de outro, de muita profundidade e elevação espiritual. Era um lago de paz, onde muitas pessoas podiam navegar neste lago, chamado Frei Rui. Porque ele permitia; era muito solícito e caridoso”.
Wanderlei Garcia Donini – Instituidor da Fundação Pró-Hansen.
Frei Rui – um grande humanista. Um lago de paz onde se podia navegar.
Frei Rui fazia uma oração antes de iniciar as reuniões na Pró-Hansen
Profissionais que atuavam no CELSA – Centro de Estudos Leprológicos Souza Araújo, em 1962