Depoimento
Sr. Varcilio Zebulski
Prudentópolis, 1935. Trabalhávamos na lavoura. Éramos uma família de dez pessoas. Pai, mãe e oito filhos. Quatro mulheres e quatro homens.
Eu tinha 8 anos. Ficamos sabendo pelos comentários do povo que tínhamos uma doença ruim chamada “lepra”. As pessoas chamavam aqueles que que tinham a doença de “lazarento”. Todos se afastavam com medo da gente. A doença começou na nossa família. Nessa ocasião meu pai e minha mãe apresentavam sinais bastante graves da doença, depois é que foi aparecendo em outras pessoas na comunidade.
Nosso pai explicou-nos que viríamos a Curitiba em um Hospital que eles dois, provavelmente, teriam que ficar internados, visto que a doença havia se manifestado mas que os filhos voltariam para Prudentópolis. Quanto a mim me poria para estudar em um colégio.
Após seis dias de viagem de carroça, chegamos em Ponta Grossa. Lá tomamos o trem que nos trouxe até aqui. Na viagem de trem, apesar dos sinais evidentes da doença dos meus pais, ninguém nos abordou.
28 de fevereiro de 1938, domingo. Fazia um dia lindo, bem ensolarado. Chegamos em dez pessoas da minha família aqui no Hospital. Logo fomos recebidos carinhosamente pelas Irmãs. Trazia comigo a certeza de que aqui não iria ficar. Feitos os exames ficou constatado que os meus pais e os quatro filhos mais novos tinham contraído a doença. Eu estava entre eles. Os quatro filhos mais velhos, três moças e um rapaz com idade entre 18 a 25 anos, foram liberados, podiam voltar para Prudentópolis.
Aqui naquela época havia as enfermarias e as casas de madeira que posteriormente foram substituídas por pavilhões e casas de material. Ocupamos então, uma casa mas logo após algum tempo minha mãe faleceu, meu pai foi para a enfermaria e nós todos de menor, como não havia pavilhão de menores ficamos nos pavilhões dos adultos.
Aqui não tinha escola então meu pai procurou uma pessoa entre os doentes que nos ensinasse ler, escrever e fazer contas.
Passaram-se alguns anos, quando eu já estava com 14 anos foi aberto um grupo escolar. Entrei na classe C, sabia bastante. No mesmo período foi criada a escola de música a qual também frequentei. Trabalhava também na alfaiataria.
Meu irmão de 7 anos faleceu aqui em consequência de tétano. Em 1942 meu irmão mais velho que havia retornado para Prudentópolis também adoeceu e veio para o Hospital. Em 1948 veio também uma das três moças que havia retornado na ocasião. Os dois logo faleceram em consequência da doença. Ela faleceu com 28 anos.
Aqui todos os pacientes trabalhavam, isto é, aqueles que tinham condições.
O tratamento não era eficaz mas era obrigatório. Os pacientes eram tratados com um medicamento denominado “chalmougra” (ou chaulmoogra) aplicado através de injeções ou infiltrações feitas nas faces ou nas pernas que provocavam inchaço, muita dor e sofrimento.
Havia aqui muitos doentes. Acredito que houve épocas em que tinha até 1200 a 1300 doentes.
Aproximadamente em 1947 teve início o tratamento a base de sulfa. Com o advento da sulfa os pacientes foram recebendo alta hospitalar e então encaminhados a tratamento ambulatorial.
Da minha família somos agora três irmãos vivos. Todos os demais morreram com esta doença que agora não se chama mais lepra mas sim hanseníase.
Acho que hoje as pessoas doentes com hanseníase e que não são mutilados devem fazer o tratamento no hospital na fase aguda e depois retornar a família e continuar o tratamento nos postos de saúde, principalmente para não perder o vínculo familiar e para que os familiares e vizinhos se acostumem e não se sintam temerosos.
É preciso que as pessoas sejam orientadas quanto a doença assim como é feito agora pela televisão.
É preciso que as pessoas conheçam o hospital e mantenham contato com os pacientes de hanseníase.
Há hoje muito medo dos aidéticos semelhante ao que ocorreu com a hanseníase no passado.
Nome: Varcilio Zebulski
Idade: 61 anos
(Nascimento) 18/05/1927
Obs.: Varcilio Zebulski era o Prefeito do Hospital, Maestro do Coral e Dirigente da Banda
Fotos do Hospital São Roque – atual Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná
Fonte: Jornal Gazeta do Povo
Entrada do Hospital
Leprosário em 1926
Acesso às Enfermarias
Ala masculina da enfermaria em 1926
Casas onde ficavam as famílias acometidas por Hanseníase
Capela São Roque