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Depoimento

Sheila Elias Damasceno

Conheci o Frei Rui na Capela São Roque quando eu tinha 8 anos. Nós viemos de São Paulo e meu pai nos abandonou um ano depois de chegarmos em Piraquara. Foi quando o Frei Rui e a Irmã Lucila começaram a ajudar a minha família. Éramos em oito. Minha mãe, quatro meninas e três meninos. E a vida foi ficando muito difícil.

Os doentes ficavam presos no Hospital, naquela época. Não podiam sair. Então minha mãe começou a cozinhar para eles. Recebia encomendas principalmente de bolos. Mas cozinhava de tudo, até frango assado. Ela ia numa casa que tinha atrás da Igreja e fazia os bolos e salgados lá. Dentro mesmo do Hospital.

Mas o Frei Rui ajudava dando cesta básica, mantimentos, roupas, calçados.

Então minha mãe ficou doente, com diabetes muito avançada e não pôde mais continuar trabalhando.

Foi aí que eu e minha irmã começamos a trabalhar com reciclagem. A gente tinha uma carroça de reciclagem e o Frei nos ajudava muito dando material para reciclagem que ele recebia e que o Hospital não ia usar. Mas para nós tinha utilidade. A reciclagem foi o que nos sustentou.

As vezes trabalhávamos o dia inteiro e não conseguíamos nada. Chegávamos em casa e o Frei aparecia com a Kombi cheia de material para reciclagem. Era o nosso alívio. O Frei sempre foi um grande amigo. Um pai para nós.

E ele nos apresentou a Dona Regina Ramina e a Dona Lindaura Linhares Kintopp (atual Vice-Presidente da Associação Beneficente São Roque). Elas, junto com o Frei Rui, e as Irmãs da Fraternidade do São Roque, ajudaram minha família com tudo. No nascimento das crianças, as Irmãs e as amigas do Frei davam enxoval. As Irmãs iam na nossa casa. O Frei Rui também. Todo ano ele ia abençoar a nossa “Mesadinha dos Anjos”. Era uma intenção que a gente fazia. Por 7 anos fazíamos um almoço para 7 crianças, em agradecimento de uma graça recebida. Mas vinham muitas crianças. E o Frei Rui também vinha para abençoar. Ele participava de tudo. Era muito presente na nossa vida.

O Frei Rui foi a única pessoa que eu conheci que a gente podia falar de tudo. Ele não tinha preconceitos.

Depois o Frei me ajudou arranjando um emprego numa empresa, na área da limpeza. Aí as coisas começaram a melhorar.

Nós íamos na Missa todos os domingos. No começo, participávamos do Coral. Também participávamos do Teatro da Semana Santa. Todos os anos, eu e minha família inteira participávamos deste Teatro.

O Frei Rui celebrou meu casamento. Eu casei com José Donizete Damasceno. Eu tenho cinco filhos e hoje moro no interior de São Paulo, mas sempre venho a Piraquara para visitar meus parentes.

O Frei Rui sempre pedia para nós compartilharmos aquilo que pudéssemos compartilhar.

A gente ia no pomar que ele plantou, e pegava as frutas. E quando alguém pedia, nós dividíamos. O Frei Rui estimulava para sermos boas pessoas. Ele falou que gostava de ver que a gente dava as melhores frutas para quem pedia.

Ele foi muito importante para nós. E sempre falava que com o trabalho e solidariedade, tudo podia melhorar.

O Frei Rui dizia: “Muita gente vem me pedir dinheiro. Ninguém me pede uma enxada para trabalhar.”

A Dona Lindaura ajuda a minha família até hoje. Ela entrega os brinquedos para as crianças. Ela sempre vestiu, alimentou. Ajuda todo mês minha irmã e meu irmão. Ajuda com tudo o que for preciso: roupas para as crianças, comida, calçados, remédios.

Somos agradecidos ao Frei Rui, às Irmãs e todas as pessoas que ele nos apresentou e sempre nos ajudaram, como a Dona Lindaura e a Dona Regina. Foram e são uma bênção em nossas vidas. Que Deus lhes dê em dobro tudo de bom que fizeram por nós.

Sheila Elias Damasceno

Frei Rui trazia material para reciclagem na Kombi

Sempre participávamos do Teatro da Semana Santa na Capela São Roque

Lindaura Kintopp e Regina Ramina

Associação Beneficente São Roque: Legado do Frei Rui