Depoimento
Rosangela Soares de Lima
Uma Rosa com amor
Piraquara, Capela São Roque, sábado, próximo das 17h30. Entram pela porta lateral da Capela duas crianças pequenas, 5 e 3 anos. Ligeiras, correndo entre os bancos da Capela, rumo à lateral do Altar onde iria começar a oração do Santo Terço. Logo atrás, também ligeira, vinha a mãe. Eram Rosa, Lucimara e Luciane.
Rezavam o Terço no microfone, para que os doentes internos do Hospital também pudessem acompanhar. Depois cantavam junto do Coral. No domingo, às 9 horas, lá estavam elas novamente. Eram três vozes lindas. O Frei Rui mesmo as treinara e ensinara as modas de viola que ele gostava tanto. Depois, Luciane e Lucimara foram participar do Coral do HSBC e ficaram cada vez mais afinadas. Cresceram, casaram-se, mas deixaram a imagem bonita e singela da ligeireza e prontidão com que chegavam para rezar e cantar na Capela.
Ao longo dos anos muitas pessoas participaram do Coral da Capela São Roque e das Missas. Mas uma nunca faltava: era a Rosa. Todo sábado às 18 horas. Todo domingo às 9 horas. Chovesse ou fizesse sol.
Rosa chegou em Piraquara na década de 90. Antes trabalhava para uma senhora que vivia em uma chácara. Esta senhora, todo mês, guardava uma parte do salário da Rosa e dizia: “Esse dinheiro é para você comprar sua casa, Rosa”. E assim foi. Um dia Rosa comprou seu terreno e construiu sua casa. Perto da Capela São Roque.
Falaram para ela do Frei Rui e da Irmã Lucila, que ajudava a todos. Rosa foi até lá e conheceu o Frei Rui. Muito ocupado, correndo de um lado para outro, ela acabou sendo atendida pela Irmã Lucila. E começou a frequentar o local.
Além das Missas, Rosa começou a ajudar a Irmã Lucila e foi ganhando a confiança de todos. Um dia, a Irmã Lucila perguntou se Rosa a ajudaria a fazer uma faxina em seu quarto pois, trabalhando como trabalhava, sem hora para descansar ou comer, precisava que alguém lhe ajudasse também. E Rosa foi e fez um bom trabalho. E demonstrou que era de muita confiança.
A Irmã Lucila, então, falou com o Frei Rui para permitir que Rosa lhe ajudasse a faxinar a casa. Tanto um como o outro trabalhavam muito. Manter a ordem da própria casa era uma tarefa a mais. Isso faria com que perdessem o pouco tempo que tinham, pois o mais importante era ajudar o próximo.
Frei Rui resistiu o quanto pôde. Mas, um dia, viu que precisava mesmo de ajuda e chamou a Rosa. Nunca ninguém havia entrado na casa do Frei Rui. A Rosa era a única pessoa que tinha permissão de ir lá. Limpava, organizava e ficava tudo uma beleza. Não era o dinheiro que motivava a Rosa a ajudar a Irmã Lucila e o Frei Rui. Ela ajudava por amor.
Frei Rui queria pagar, mas a Rosa não aceitava o pagamento. Muitas vezes, no final da Missa, a Rosa indo embora, o Frei Rui corria atrás dela para pagar e ela não aceitava. O Frei Rui dizia: “Para comprar o gás, Rosa.” E ela respondia: “Eu tenho gás.” Virava as costas e ia embora.
Mas não era só no Coral, na casa do Frei, no quarto do Irmã Lucila que Rosa ajudava não. Era também nas distribuições de comida para os carentes, nas festas para as crianças, nas festas de Natal, em todas as ocasiões. Se precisavam da Rosa, ela estava lá. E Lucimara e Luciane iam junto.
Uma comunidade franciscana verdadeira.
Uma Rosa com amor.
Um dia, estavam indo o Frei Rui, a Rosa, Luciane e Lucimara; para a Paróquia do Bom Jesus dos Perdões, em Curitiba, fazer uma apresentação, as duas tinham aprendido uma música nova no Coral do HSBC e a Rosa falou para elas cantarem para o Frei. Ele não conhecia a música.
Duas vozes lindas, afinadas e infantis começaram a cantar:
“Lá vai São Francisco pelo caminhoDe pé descalço, tão pobrezinhoDormindo à noite junto ao moinhoBebendo a água do ribeirinho
Lá vai São Francisco de pé no chãoLevando nada no seu surrãoDizendo ao vento, bom dia amigoDizendo ao fogo, saúde irmão
Lá vai São Francisco pelo caminho Levando ao colo JesuscristinhoFazendo festa no menininho Contando histórias pros passarinhos
Lá vai São Francisco ...”
E à medida que entoavam tão bela canção, a Rosa olhou para o rosto do Frei Rui e viu uma discreta lágrima rolar no canto do olho.
Nunca ninguém tinha tido permissão de entrar na casa do Frei Rui. A Rosa tinha.
Nunca ninguém tinha visto o Frei Rui chorar. A Rosa viu.
No final da vida, já doente, o Frei Rui foi para Bragança Paulista e a Rosa e a Luciane foram visitá-lo. A Luciane levou o violão. Ele olhou e disse: “Rosa, vocês vieram até aqui me encontrar?” A Rosa respondeu: “Claro Frei, e viemos para cantar.”
E começaram a cantar para ele as músicas que ele mesmo tinha ensinado para elas. O Frei Rui acompanhava, cantando baixinho.
Um dia, ele foi embora para junto de Deus.
E a Rosa cantou: “Lá vai São Francisco, pelo caminho, de pés descalços, tão pobrezinho...”
Uma Rosa com amor.
Luciane e Lucimara, crianças, cantando na Capela São Roque
Canto na Capela São Roque: quem canta reza duas vezes
Rezando e cantando
Rosa e Luciane visitando Frei Rui em Bragança Paulista – muitos cantos.
Rosa sempre esteve presente. Como o Frei dizia: “o amor exige presença”
Uma Rosa com amor
Uma Rosa com amor