Depoimento
Maria Giotto
Lembranças do Frei Rui
Meu primeiro encontro direto com o Frei Rui foi quando meu sobrinho neto foi batizado.
Naquele tempo (1975-1977) as estradas não eram asfaltadas e meus pais vieram de Passo Fundo com meu irmão dirigindo um Fusca (marcha lenta) e o batizado seria às 4 horas da tarde a ao meio dia, ameaçou chuva e eles tinham que voltar e ia ter atoleiro.
Assim, fui à casa dos Padres pedir se eles adiantariam a hora do batizado para que eles pudessem ir embora. Quem me atendeu foi o Frei Rui. Ele adiantou o batizado para logo depois do meio dia e eu prometi a ele que faria um bolo para ele: fiz o melhor bolo e o mais bonito; assim começou a nossa história de amizade.
Moramos em uma região de descendentes de italianos e é costume tomar caldo de galinha com torradinhas, convidamos o Frei para tomar este (brodo) e mal ele sabia que a gordura fica por cima e como não saía fumacinha, tomou um gole grande, coitado queimou a boca e não quis saber de mais nada, dava dó, ele só disse: “tudo passa”.
Na mesma época foi desmanchada a Igreja velha e estava sendo feita esta de agora, por sinal muito bonita.
Foram feitas festas para angariar fundos para a construção e aí vem a estória dos três porquinhos.
Naquele tempo todos os agricultores davam porcos, galinhas, gado e muitas outras coisas desde que não lhes fizesse falta, para a festa do Padroeiro Santo Antônio.
Como éramos do Conselho da Paróquia, meu marido tinha caminhão, lá se foram três: Frei Rui, Frei Simão e o Nelso. Eles mesmos tinham que entrar nas baias e pegar os porcos e ficaram sujos... Quando chegaram na cidade com o caminhão cheio, foram direto para o Frigorífico Sadia, hoje BRF, onde os animais seriam abatidos e ficaram mais sujos.
O diretor da empresa, que também era do Conselho da Igreja, pediu que fossem até ele mas, ao entrarem no escritório do diretor, Sr. Anselmo Fontana, ele pôs a mão no nariz e disse que teriam fugido da carga e pareciam três porquinhos.
Quando começamos a preparação dos bolos, bolachas, cucas, assados, etc,... o Frei Rui disse que nunca tinha visto tanta fartura e que o povo era tão generoso. Ele olhava e ficava tão admirado que mal conseguia ficar com a boca fechada.
O Frei Rui estava vindo da Baixada Fluminense onde só existia muita pobreza.
Eu e o Nelso fomos com o Frei Rui e o Frei Simão para Treze Tílias para ver as imagens esculpidas a mão em madeira. Do escultor Thaler. Eram tão bonitas que encomendamos a Nossa Senhora, São José e o Cristo na Cruz que hoje adornam nossa Igreja. O Frei disse: “Se o povo gostar, fui eu que escolhi, se não gostarem, foram vocês”. KKKKK! Eles estão na nossa Igreja e admirados por todos.
Observação: Em Piraquara, na Capela do Hospital São Roque, tem uma cruz feita pelo mesmo escultor.
Na construção da nossa Igreja muitas vezes o Frei carregava sacos de cimento nas costas, não olhava que trabalho viesse pela frente.
Com o tempo foi se inteirando nas comunidades e via o que o povo menos favorecido precisava de muita coisa e foi quando ele começou a construir pequeninas casas para estes necessitados. Ele pedia ajuda nas empresas para fazerem doações de madeira e fez muitas casinhas: o tempo passou e hoje esse é um bom bairro da nossa cidade e chama-se Nova Brasília.
No ano de 1978 eu e minha família nos mudamos para o Mato Grosso. Ficamos pouco tempo. Quando voltamos para Concórdia ficamos sabendo que ele tinha sido transferido para Piraquara.
Agora começa outra história.
Começamos a frequentar o Hospital São Roque e ajudar nas festas (Festa de São Roque) que foram crescendo até quase não ter mais espaço para tanta gente.
Tudo era artesanal. Os frangos que a Sadia doava não eram assados, eram feitos em caldeirões com mais ou menos 200 litros de óleo, eram fritos inteiros (“muito bons”).
Os internos não podiam pagar.
Eram feitos pratos prontos com uma bisteca assada, maionese e farofa (“bom”).
Chamavam as bistecas de churrasco onde eram feitas em churrasqueiras de mais ou menos 150 metros.
Fazíamos maionese com muitos sacos de batatas, farofa com não lembro quantos quilos de farinha, também muito gostosa e servíamos tudo em prato feito.
Estas festas ficaram tão grandes que o governo proibiu “não sei por que”.
Não perdemos o contato com o Frei Rui. Continuamos ajudando.
Na Páscoa, como tínhamos caminhões câmara fria, todos os anos nessa época tinha uma pessoa de São Paulo que doava um ovo de chocolate para os doentes. Esse era muito grande e cada ano ele aumentava 5 Kg. Chegou um ponto de não caber mais na câmara fria e o governo proibiu também.
Voltando atrás, em uma das festas, o Frei estava nervoso porque não tinham chegado as vinas e pediu para eu buscar no mercado. Na verdade eu não sabia o que eram vinas, aí pedi que ele mandasse alguém comigo e ele mandou um rapaz. Chegando lá eu disse: “vai na frente porque eu não sei onde elas estão”. Qual minha surpresa! Eram salsichas! Kkk!
Tem muita história que daria para escrever um livro.
Obrigada Frei Rui por fazer parte da minha vida.