Depoimento
Maria Elza Simão
Conhecendo o Frei Rui
Quando mudei para Piraquara, tive minha filha e precisava batizá-la. Meus sogros e toda família sempre foram muito católicos mas a Igreja que frequentávamos exigia o curso do batismo e meu marido não tinha tempo de fazer, porque trabalhava muito. Tinha dois empregos. O verdureiro, Sr. Joaquim, era o responsável por tocar o sino da Capela São Roque. Sabendo da situação me falou: “Vá falar com o Frei Rui”. Eu era muito jovem, tinha 22 anos e 4 filhos. Inúmeras pessoas iam lá para pedir de tudo, sendo que, muitos, abusavam da bondade do Frei. Ele, que não me conhecia, me disse: “Não tenho nada para dar.” Então comecei a chorar. Aí ele ficou conversando comigo a tarde toda e eu contei minha vida para ele e disse do pavor que eu tinha da doença de hanseníase pois me falaram que pegava no ar. Então, ele me levou para dentro do Hospital e me apresentou uma paciente chamada Dona Catarina. Ela tinha amputado os dois braços e as duas pernas por causa da doença. E o Frei Rui perguntou: “Como a senhora está hoje? ”. E a Dona Catarina respondeu com um grande sorriso: “Hoje eu estou bem. Hoje acordei sem dor”.
Uma entrega de coração
Naquela época o Frei Rui recebia da Concessionária CCV leite em pacote e leite com sabor, tipo iogurte; e precisava distribuir para as famílias em vários bairros de Piraquara. Todos muito carentes. Ao longo do tempo, fui adquirindo a confiança do Frei Rui e ele acabou pedindo para que ficasse responsável por levar esse leite.
Depois, o Frei Rui fez amizade com o dono da empresa de sardinhas Gomes da Costa. Este empresário enviava, uma vez por mês, uma carreta de latas de sardinhas. Aí a gente entregava as latas de sardinhas junto com o leite. Era uma alegria!
Comecei, então, a frequentar a Capela São Roque. O Frei Rui batizou os meus filhos e todos os meus netos.
Um dia aconteceu uma tragédia. Uma pessoa bem querida do Frei Rui faleceu num acidente de carro. Ele ficou muito deprimido. Então chegou com duas malas de roupas lindas, de grife, e deu tudo para mim. Disse que eu merecia. Fiquei emocionada.
Noventa por cento do meu lado bom, eu conheci com o Frei Rui.
A costureira de Nossa Senhora
Um dia, perto do mês de maio, o Frei Rui estava triste porque era o mês de Maria, e a Capela São Roque nunca tinha feito a coroação de Nossa Senhora.
Sugeri que as crianças jogassem pétalas de rosas em Nossa Senhora e que a Nely, que tinha uma voz linda, cantasse uma música especial.
Ele disse que ia ser muita bagunça as crianças jogarem as pétalas de rosas, pois iria sujar tudo. Eu disse que iria atrás, limpando. Ele ficou quieto na hora.
Depois, no mesmo dia, me ligou confirmando que queria a coroação e me chamou para ir na Capela. Eu perguntei: “quando quer que eu vá, Frei? ” Ele respondeu: “Ontem”. Cheguei a tarde e ele tinha um rolo de tecido branco e uma Bíblia ilustrada. E perguntou: “Você costura, né? ” Eu respondi: “Sim”. Mas a verdade é que eu não tinha muita prática em costura. Entretanto, aceitei o desafio.
Era terça feira e a coroação de Nossa Senhora ia ser no domingo.
Ele me deu uma Bíblia ilustrada e pediu para eu copiar os modelos e fazer roupas para 12 crianças, que iriam fazer a coroação de Nossa Senhora. Fiz túnicas brancas com mangas largas, para lembrar as asas de anjos, e peguei um lençol azul para fazer os cintinhos. Aí, eu levei flores de carmela porque não tinha conseguido as rosas.
Fizemos a coroação de Nossa Senhora e lotou a Igreja. O Frei Rui gostou tanto, ficou tão feliz, que disse: “Já que você costura e que deu tudo certo, você é capaz de fazer uma peça de Teatro para encenar a Paixão de Cristo”. Eu respondi: “Claro, Frei Rui! ”.
Ele me deu uns 10 rolos de tecidos para fazer as roupas que eram todas coloridas. Eu seguia os modelos da Bíblia ilustrada. Mas tinha um rolo de tecido que estava todo furado. Aí resolvi comprar, em 12 vezes, uma máquina de lavar roupas e uma secadora, para lavar todo o tecido.
Envolvi todo mundo para fazer o teatro da Paixão de Cristo.
Fui num brechó e comprei um manto que reformei e fiz um lindo manto de Nossa Senhora.
Para a coroação, fui nas Livrarias Paulinas e comprei uma coroa própria para a nossa querida Mãe Maria.
Era um grupo muito grande que estava envolvido no Teatro da Paixão e Morte de Cristo. Mais de 100 crianças. Era a felicidade do Frei Rui, pois fazíamos uma apresentação teatral muito bem feita. Eu organizava e ficava na porta.
Havia o Povo da Vela e o Povo da Bíblia. O Povo da Vela que representava o fogo da vida. O Povo da Bíblia representava a Palavra de Deus. Havia uma sequência para entrada e era tudo cronometrado. Uma vez, uma das crianças se atrapalhou e não entrou na hora e, do Altar, o Frei falou: “Elza? Tá dormindo? ” Quase morri de vergonha.
Quanto às fantasias dos soldados, eu fiz escama por escama dos coletes, na medida de 10 X 15. E fui no Corpo de Bombeiros e peguei os capacetes antigos para usar na peça de Teatro. A fantasia ficou muito boa. Pareciam realmente soldados romanos.
Eu me sentia muito feliz. Amava fazer este trabalho. As apresentações lotavam a Capela. O Gentil, um botânico renomado e grande amigo do Frei Rui, todos os anos fazia o Cristo. Ozires Faria era o São João Batista. Denilson Belão interpretava o Pilatos. Uma vez sugeri colocar o Gentil na Cruz e ele aceitou. Dois homens seguravam a Cruz e o Gentil ficou amarrado nela. Mas era para ser rápido. Entretanto o Frei leu a liturgia completa e o Gentil ficou um tempão na cruz. Outra vez faltou a pessoa que ia fazer a mãe de Jesus e eu entrei para fazer o personagem de Maria. Aí tinha que mandar a entrada e saída das pessoas, tudo cronometrado, e ainda fazer o papel de Maria. Depois da apresentação, tive uma crise nervosa e fui atendida no Hospital. Era tudo muito intenso. Nós éramos uma comunidade e nosso interesse era contar a história de Jesus, ensinar o amor e a partilha.
Todo ano eu fazia as roupas para o Teatro da Paixão de Cristo. E comprei e reformei o manto de Nossa Senhora. Ficou muito bonito. Eu estendia as roupas no varal, todas coloridas, e colocava nos baús. Fiz uma roupa especial para Judas. Eu pregava as pedras na roupa da personagem Verônica e ficou lindo!
Um dia eu estava fazendo o manto de Nossa Senhora e queria fazer o véu e passar um elástico, tipo um arco. E fiquei costurando no meu quarto. Deu um vendaval e uma tempestade tão forte que destruiu muitas casas e o teto da minha casa levantou inteiro. Mas, exatamente em cima da máquina de costura, não aconteceu NADA! O manto de Nossa Senhora ficou intacto, a agulha em cima do tecido exatamente como estava quando o teto desabou. O guarda roupa caiu e eu não conseguia sair do quarto porque a janela tem grades. Quando consegui sair, estavam lá o Frei Rui, a Irmã Inês e a Irmã Lucila. Todos preocupados. E nas roupas que estavam no baú não caiu uma gota de água. Todos os quartos foram inundados em até um metro, menos o meu quarto onde estavam as roupas do Teatro e o Manto e o Véu de Nossa Senhora.
Eu, a Marcilene Torrecilha e a Catia Zastani éramos as coordenadoras do trabalho. Ainda são as minhas grandes amigas. Um dia esta equipe foi mudada e tudo acabou. Foi na época em que adotei uma criança. Para conseguir adotá-la eu tinha que provar a minha idoneidade moral e foi o Frei Rui quem escreveu a carta para mim. Guardo até hoje.
As abelhas ficam perto de quem é doce como mel
O Frei Rui estava com muitas abelhas na beirada do telhado da sua casa. Encontrei umas pessoas de boa vontade e levei lá: Abel, Vinícius, Jurandir e Daniel. Tiramos as abelhas e o Frei, muito feliz, ficou assando pinhão para todos nós.
Irmã Lucila
Outra pessoa maravilhosa que conheci lá foi a Irma Lucila. Eu costumava costurar para ela. Nós confeccionávamos almofadas para a ABSR – Associação Beneficente São Roque, e ajudávamos nos jantares.
Minha mãe e meu pai também frequentavam o São Roque e uma vez por mês, bem cedinho, a Irmã Lucila ia para o Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Curitiba. Ela assistia a primeira Missa do dia e comprava muitas velas. E era o meu pai quem levava ela. Ele ligava o rádio e iam ouvindo Missa. Na volta, a mesma coisa.
Um dia eu fui ao São Roque visitar a Irmã Lucila que estava muito doente, mas não consegui. No dia seguinte a Irmã Lucila morreu. Eu fiquei muito triste por não ter podido despedir-me dela.
A despedida
Quando o Frei Rui ficou doente e foi para a Bragança Paulista, em São Paulo, eu tinha organizado uma viagem para ir visita-lo. Aí chegou a pandemia do Coronavírus e as visitas foram proibidas. Depois o Frei morreu. E eu também não consegui despedir-me dele.
Trabalhando e aprendendo
Com o Frei Rui, a Irmã Lucila e toda a Comunidade do São Roque, eu cresci muito como pessoa. Ele frequentava a minha casa. Eu o ajudava em tudo. Ia até nos velórios. Ele enchia a Kombi de pão, panetone e café para oferecer para quem lá estivesse. Ele levava a Palavra de Deus, mas também levava o lanche para as pessoas que iriam ficar velando o falecido.
Um dia, voltando de um velório junto com o Frei Rui, vi que minha filha estava com muita febre e pedi que fizesse uma oração para a minha filha. Ele me falou: “Você entra e faz a oração com a mão na testa dela porque não existe oração maior do que oração de mãe. ” E eu fiz isto e minha filha melhorou. Até hoje eu faço isso com meus filhos e meus netos.
O Frei Rui entendia de tudo. Era muito inteligente. E eu sempre ajudei como podia. Por exemplo, lavava as túnicas dele, das épocas especiais.
A colheita é obrigatória
Num dos últimos dias que falei com ele, tinha um corvo na torre da Igreja e ele jogava uma pedrinha que alcançava só um metro. E eu perguntei porque ele não atirava no corvo. E ele me respondeu: “Só quero espantar e não acabar com a vida de um ser vivo. Mesmo que seja um corvo. ”
A semeadura é livre e o joio e o trigo crescem juntos. Mas a colheita é obrigatória.
Eu, Elza, com o script da peça do Teatro da Paixão de Cristo na mão e com o meu filho adotivo, João Miguel Simão, que hoje tem 14 anos.
Frei Rui: o grande amigo e mentor
Foi numa máquina de costura como esta que fiz as roupas para a Coroação de Nossa Senhora e para o Teatro da Paixão de Cristo
Manto de Nossa Senhora
Véu de Nossa Senhora
Coroação Nossa Senhora
O Cristo, a Samaritana, São João Batista e, atrás, de vermelho, Pilatos
Julgamento do Cristo
As roupas que eu fazia eram sempre bem coloridas, como estavam na Bíblia ilustrada que o Frei Rui me deu
Todos participavam
Marinês Alves da Silva
Sempre ajudou muito no Teatro da Paixão de Cristo,
que fazíamos na Capela São Roque. Obrigada Marinês!
Aliás, muitos ajudavam. Aproveito para agradecer a ajuda de todos!
Todos participavam e era uma alegria
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Era uma Comunidade unida
Elza e Ozires Faria, o intérprete de São João Batista
Os soldados romanos também participavam!
Carta de Idoneidade Moral que o Frei Rui escreveu para mim e que foi fundamental para o processo de adoção do meu filho, João Miguel Simão – frente
Carta de Idoneidade Moral que o Frei Rui escreveu para mim – verso
As abelhas gostam de quem é doce como mel: tirando as abelhas da casa do Frei Rui.
Quando tiramos as abelhas do beiral da casa do Frei Rui, conseguimos colher uns 10 Kg de mel que deixamos na casa das Irmãs.
E o Frei Rui, assou pinhão para o pessoal
Pinhão assado pelo Frei Rui, era mais gostoso