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Depoimento

Maria Elita Wiggers Pickler

Uma grande bênção

“Sou irmã de sangue da saudosa Irmã Inês Wiggers. A primeira vez que estive no São Roque fiquei muito encantada com o local. Foi quando conheci o Frei Rui. Voltei para minha casa, em Petrolândia, Santa Catarina, impressionada com a beleza do São Roque e com o lindo trabalho feito lá por toda Fraternidade.

Uma vez, a Ir. Inês me perguntou se eu podia passar alguns dias ajudando no atendimento da casa delas. Muitas Irmãs idosas precisavam de cuidados e a Irmã que atuava neste atendimento, ia viajar.

Eu aceitei o convite e fui, com minha outra mana, a Sônia, para ajudar no que fosse preciso. Ajudávamos na limpeza, cozinhávamos, cuidávamos das Irmãs doentes: fazíamos o que fosse necessário.

Foi quando o Frei Rui também começou a adoecer, bem como o Irmã Inês.

Fomos nos revezando para atender o pedido da Inês. Eu e minhas outras irmãs: Sônia, Zita, Nina e a Adelinde.

Um fim de tarde a Ir. Inês me pediu que eu ficasse cuidando da casa pois elas iriam para a oração. Eu fiz um chimarrão e fiquei na frente da casa para atender alguém que chegasse. De repente apareceu o Frei Rui e eu disse que ele podia entrar pois já iriam servir o jantar. Mas ele foi embora. Quando acabou a oração, a Ir. Inês foi buscá-lo e todos jantamos. Eu e a Inês fomos acompanhá-lo até a sua casa e pedimos que entrasse e trancasse a porta. Mas ele era um cavalheiro, quis voltar e nos acompanhar para garantir que nós chegaríamos em casa com segurança. Ele era preocupado com todo mundo. Mas conseguimos convencê-lo que estávamos seguras e que ele entrasse em casa, fechasse a porta e descansasse.

A esta altura, tanto o Frei Rui como a Irmã Inês precisavam de cuidados. Então, as Irmãs acharam por bem trazer o Frei Rui para dentro da casa delas, com o objetivo de cuidar melhor dele. E eu fiquei cuidando do Frei Rui. Foi uma experiência maravilhosa. Foi uma grande bênção. Ele não cansava de me abençoar e rezar por mim. Outras pessoas também ajudavam nesses cuidados, mas ele pedia que eu cuidasse dele. Havia criado um laço de confiança. E eu cuidei dele da melhor maneira que pude, com todo o respeito e carinho que ele merecia. O Frei Rui era uma alma pura. Um homem santo. Ele conversava comigo durante horas, contando sua vivência dentro do São Roque. Falava com muita tristeza da plantação que ele havia feito dentro do Hospital. Tinha plantado trigo, milho, soja, mas foi obrigado a desistir desse projeto. Não entendi direito o motivo.

Eu atendia o Frei Rui e a Irmã Inês. Outras pessoas da família também vinham: irmãs, filhos, sobrinhos, maridos. Todos da família deram o melhor de si para ajudar neste momento difícil. Rezávamos muito para que ambos melhorassem. Eles eram uma fortaleza. Trabalharam juntos por muitos anos. Tinham um grande cuidado um com o outro. Todos na casa ajudavam demais. Todas as Irmãs. Lembro muito delas. Tenho grande admiração e afeto por todas. Nunca me esqueço da Irmã Natalícia. Ela foi muito forte. Segurou a situação tão difícil: a Irmã Inês e Frei Rui doentes. Aos sábados, ela fazia as celebrações para que a comunidade não ficasse sem a Santa Eucaristia. Uma guerreira. Tenho a maior admiração por ela. Tenho admiração por todas as Irmãs: Ir. Noely, Ir. Celinha, Ir. Ada, Ir. Julita. Não poderia dar todos os nomes porque não me lembro, mas elas moram no meu coração.

Eu ganhei da Ir. Inês o Terço que o Frei Rui levava na Kombi dele. Ele dizia “Cristo vai comigo!”. Hoje eu carrego este Terço dentro da minha bolsa e digo: “Cristo vai comigo! Amém!”.

Cuidar do Frei Rui, foi uma grande bênção.

Ajudar minha querida mana, Irmã Inês, foi uma grande bênção.

Aconteciam coisas engraçadas. Um dia o Frei Rui queria sair. Eu e a Irmã Noely o levamos para passear no jardim e lá ele viu um grande lagarto. Queria pegar o lagarto de qualquer jeito. Foi com algum esforço que o convencemos que seria melhor voltar para a casa. O lagarto tinha se embrenhado no mato e seria perigoso ir atrás. Por fim, ele se convenceu e voltou para a casa conosco.

Mas um dia muito triste foi o dia da sua partida...

Ele abençoou a Irmã Inês, abençoou a todos, entrou no carro, abaixou a cabeça e ficou quieto. Todos choraram muito. Ele estava muito triste. Naquele momento ele tinha plena consciência do que estava acontecendo. Sabia que iria para uma Casa de Repouso dos Frades em Bragança Paulista, SP. Foi uma despedida muito doída. Lágrimas saíam de seus olhos. Mas ele se manteve de cabeça baixa e quieto.

Eu fui junto com a Edna Dias levá-lo ao Aeroporto. Lá estavam aguardando o Edgar e o Frei Alexandre, que iriam acompanhá-lo até Bragança.

No Aeroporto ele pediu que eu seguisse viagem com ele. Eu expliquei que não podia, que não havia mais lugar no avião, mas que ele iria muito bem acompanhado e estaria entre amigos. Novamente ele baixou a cabeça e ficou quieto. E foi embora. Chorei muito. Nunca mais o vi.

Nós tínhamos esperança de que ele melhoraria, que a Ir. Inês se curaria e que eles voltariam a atuar juntos no São Roque. Mas o plano de Deus era outro.

Fiquei cuidando de minha querida mana, Ir. Inês, revezando estes cuidados com minhas outras irmãs, com as Irmãs Franciscanas de São josé, e com toda família, que ficou ao lado dela até o fim.

Foi uma grande perda o falecimento da Irmã Inês.

Foi uma grande perda o falecimento do Frei Rui.

Mas sei que no céu eles olham por nós.

Para mim, essa experiência foi uma grande bênção.”

As irmãs Wiggers: Ir. Inês, Zita, Nina, Sônia e Maria.

Ir. Inês e Maria

Nina e Ir. Inês Wiggers

A Fraternidade São Roque.

Frei Rui Depiné. Uma alma pura. Um homem santo.

A plantação do Frei Rui no São Roque

Terço do Frei Rui que hoje a Maria leva dentro da bolsa.

“Cristo vai comigo!”