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Depoimento

Maria Bernadete Pinheiro

Nasci dentro do Hopital São Roque. Hoje tenho 57 anos. Meus pais eram internos e, ao nascer, fui adotada por uma família que morava nas redondezas.

Aos 12 anos estava sentada na porta da torre da Igreja e lembro bem do dia que o Frei Rui chegou para assumir a Igreja. Sempre humilde e simples chegou apenas com uma malinha na mão, um sorriso no rosto e a camisa xadrez. Muito educado, cumprimentou um por um dos que estavam ali, dando a mão para todos. Ao longo do tempo foi virando o nosso herói.

Eu vivi sempre no São Roque. Antes do Frei Rui, conheci o Frei Câncio que trabalhava lá. No São Roque tinha tudo. Era uma mini cidade. Tinha cinema, futebol aos domingos, prefeitura, plantação.

O Frei era tudo para nós: psicólogo, professor, amigo, conselheiro. Nunca deixava ninguém sair de lá de mãos abanando. Não descansava. Mal dormia.

Ele era um ombro amigo. Um colo. Era tudo para nós. A comida que eu comia, o remédio que eu tomava, o chinelo no meu pé, a roupa que eu vestia, era tudo dado pelo Frei Rui e pelas irmãs do São Roque. Tinha a Irmã Lucila, a Irmã Maria. Eram muitas Irmãs trabalhando lá. O leite dos meus filhos eu peguei lá. As bolachas, que eram um luxo na época, meus filhos comeram no São Roque. Ele me deu uma máquina de lavar roupa, que foi muito importante para mim.

Um tempo eu morei no Pilarzinho e tinham umas mulheres com depressão que se tratavam no Posto de Saúde, e lá falaram que elas deveriam fazer algum trabalho com máquinas de costura. Pedi para o Frei Rui e ele mandou 3 máquinas! Uma inclusive com motor! Até hoje as mulheres de lá fazem trabalhos naquelas máquinas.

As vezes o Frei ficava cansado, stressado. Mas atendia todo mundo.

As pessoas morriam e ele dava um caixão, que fazia na própria marcenaria do São Roque. E dava também um espaço para enterrar no Cemitério.

Uma palavra que não existia no vocabulário dele era não. Ele sempre dava um jeito para ajudar.

Hoje, graças à Deus, eu estou bem. Mas já peguei cesta básica na Associação São Roque. Precisava de remédio, ele trazia.

O povo incomodava muito. As vezes ele dava bronca, mas atendia todo mundo.

Eu era muito brava, revoltada. Mas ele sempre foi meu amigo.

Ele não se preocupava se tinha roupa para si. Se tinha uma sandália para si. Ele não tinha parada. Vivia correndo. E sempre com um sorriso no rosto. É o nosso herói.

Em 20/04/1990 eu fui casar na Igreja do Bairro da Primavera. Mas precisava da minha Certidão de Batismo. Eu fui batizada na Capela São Roque, lá no Batistério onde o Frei Rui fez sua sala. E o Frei saía muito cedo e chegava de noite. Era difícil encontrar ele lá. Então fui buscar minha Certidão às 19h30. E ele estava procurando quando chegou uma senhora chorando porque tinha apanhado do neto. Ele foi atender essa senhora e levar ela para casa. Voltou às 22 horas. E eu estava lá esperando minha Certidão de Batismo, porque ia casar no dia seguinte. Aí ele perguntou “Mas isso são horas de pegar a Certidão de Batismo?” E eu respondi: “ Mas isso são horas do senhor chegar em casa?”. E a gente deu risada. Ele procurou, procurou até que encontrou e me deu a minha Certidão.

Ele fazia Missa em tudo quanto era lugar. Eu ia junto para ajudar. Ia nas Missas do Hospital San Julian, ajudava nos Batizados segurando as crianças. Fazia de tudo um pouco.

O Frei Rui era um pai para mim. E sempre me ajudava.

Quando ele chegou, era jovem, vigoroso, forte. Depois foi ficando com os cabelos brancos, a sombrancelha branca. Foi envelhecendo.

A gente ia na Missa pela pregação dele, pela doutrina dele, ouvir a palavra dele. Ele colocou alto falante nas enfermarias para que os doentes, que não podiam ir até a Capela, pudessem escutar a Missa.

Feliz daquele que conheceu o Frei Rui e é grato por tudo o que ele fez. Tenho muita saudade.

Eu vivi São Roque. Eu respirei São Roque. Nunca vai se apagar isto dentro de mim.

Tudo ele soube dividir e repartir.

Feliz daquele que valoriza o Frei Rui.

O São Roque tem história.

Feliz daquele que viveu e conviveu no São Roque.

Gratidão pelo São Roque. Gratidão pelo Frei Rui.

Maria Bernadete com os netos Henrique, Gustavo e Gabriel

Batizado da filha da Maria Bernadete, Debora Pinheiro,

realizado pelo Frei Rui há 39 anos, e os padrinhos Filomena e Lauro Calixto.