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Depoimento

Ligia Coelho Martins

Como vivi um milagre

Depoimento de Ligia Coelho Martins

O dicionário define um milagre como "qualquer indicação da participação divina na vida humana" ou ainda como "um ato ou acontecimento fora do comum, inexplicável pelas leis naturais".  Essas definições fazem a gente pensar sobre as formas como Deus nos atinge a cada dia de modo extremamente sutil.

No seu último ano de vida, o escritor Aldous Huxley escreveu o livro "A Ilha", em 1962.  A ilha era cercada por pássaros que não diziam "Bem-Te-Vi", "Có-Có-Ri-Có" ou "Currupaco".  Os pássaros voavam em volta da ilha dizendo "Atenção" e "Aqui e Agora".  Dizem que São Francisco conversava com os pássaros.  Sem querer, ou talvez querendo, Huxley decifrou para mim a magia e o milagre de São Francisco ouvindo a linguagem da natureza:  uma linguagem sutil, discreta, que toca menos os sentidos e mais o coração.  Atenção.  Aqui e agora.  Vejam todos os milagres à nossa volta, a cada dia.

Assim foi a chegada milagrosa do Frei Rui em minha vida.

Aprendi a prestar mais atenção aos milagres sutis da vida. Nada define melhor uma vida do que servir a algo que é maior do que a individualidade de cada um.

Meus avós conheciam a Irmã Lucila e algumas vezes fomos levar doações para ela.  Me lembro da Irmã Lucila desde que eu era pequena.

Meu avô, Francisco Alceu Coelho Martins, era uma pessoa muito boa. Ajudava todo mundo. Descendente de italianos, gostava da família reunida ao redor da mesa e sempre foi uma presença muito forte na minha vida.

Ele faleceu em julho de 2002. Um ataque cardíaco fulminante. Eu tinha 22 anos, trabalhava muito, estudava, vivia minha vida sem muitas preocupações.

O falecimento do meu avô me afetou muito.  Fiz aquela reflexão que todos fazem: “A vida é curta e como ter uma vida significativa? Como ter certeza de que contribuímos positivamente para a comunidade, as pessoas que nos rodeiam?”

Naquele momento, pensei que fazer alguma coisa boa para ajudar alguém também seria a melhor forma de homenagear meu avô, porque era isso que ele fazia. Foi quando me lembrei da Irmã Lucila do São Roque, e liguei para ela. A Irmã Lucila me colocou em contato com o Frei Rui, porque ele ia celebrar o Dia das Crianças com a comunidade do entorno da Capela São Roque e estava precisando de ajuda.

Liguei para o Frei Rui e expliquei para ele que eu gostaria de ajudar no Dia das Crianças. Ele respondeu que eu poderia doar pipoca doce, que as crianças gostavam muito e não era caro. E eu perguntei quantos sacos de pipoca ele precisaria: 100, 200?

Ele respondeu: “Você poderia trazer uns 2000 pacotes de pipoca?”. Então fiz uma pequena campanha entre amigos e família para arrecadar os 2000 pacotes de pipoca. Muita gente contribuiu com pipocas, com brinquedos e roupas.  A generosidade de todos foi impressionante.

Liguei novamente para o Frei para avisar que já tinha as tais pipocas e dizer que eu queria também ajudar na distribuição.

No dia do evento, ele mandou a Juci e o Loiso Pallar para buscaram as doações e me levarem para Piraquara.

Quando a Juci e o Loiso chegaram lá em casa, estávamos eu, minha mãe e minha avó. Eles acharam que era minha avó quem tinha feito a campanha e ia participar da distribuição, porque o Frei falou que era uma senhora.

Quando chegamos no São Roque, o Frei logo saiu da sua salinha e perguntou para a Juci se eles tinham ido buscar aquela senhora das pipocas.  Quando ele me viu, ficou surpreso. Disse que tinha certeza que eu seria uma senhora mais “madura” pois a voz no telefone era de uma senhora.  Não imaginava que eu fosse tão nova.  E neste dia começou uma grande amizade com o Frei e com o grupo todo.

Muitas coisas me marcaram profundamente na relação com o Frei Rui. É até difícil descrever.

O que mais me marcou é que, apesar de conhecer outros sacerdotes, (estudei a vida inteira em escola jesuíta) eu ficava muita admirada com a simplicidade do Frei Rui, a maneira como ele se conectava com todos sem considerar idade, origem, poder aquisitivo. Ele tratava a todos igualmente.

O Frei Rui era muito inteligente, tinha o raciocínio rápido e um senso de humor fantástico. Isso, para mim, era uma coisa nova num sacerdote os quais normalmente, se apresentavam como figuras muito sérias, “intocáveis”.  Talvez muitos sacerdotes se julguem sérios e dogmáticos por representarem uma ponte com Deus.  O Frei encontrou essa ponte com Deus se conectando de forma simples com todos, principalmente os mais necessitados.  Como queria Francisco de Assis.

Aprendi muito com ele. Eu que venho de uma família com muitos descendentes europeus: alemães, portugueses, italianos, espanhóis; onde tudo sempre foi muito sério.

E com o Frei Rui eu aprendi que podemos ser sérios, responsáveis, mas também podemos ser bem-humorados, divertidos, ou seja, podemos levar a vida de forma mais leve. Mesmo quando estamos enfrentando momentos difíceis.

O Frei via muita coisa triste, lidava com a dor e o sofrimento diariamente e, mesmo assim, ele mostrava que a vida podia ser relativamente alegre, feliz, e via o lado bom de tudo e de todos.

Ele também perdoava muito. As vezes a gente ouvia estórias de pessoas que não faziam coisas legais, mesmo depois do Frei Rui ter ajudado, e ele perdoava. Isso é de uma generosidade, caridade, empatia incrível. Porque as vezes é muito fácil julgar.

Esse foi um ensinamento muito importante para mim: não julgar ninguém. Por mais errado que pareça. Isso não quer dizer ser hipócrita e fazer de conta que não está vendo. Não é isso. O Frei via tudo. Mas as vezes precisamos tentar ver o outro lado, pois nem sempre as pessoas têm escolhas, nem sempre elas sabem fazer diferente. Muitas vezes cresceram vendo e ouvindo outras pessoas fazendo coisas erradas e acabam reproduzindo. Então, isso para mim foi um grande aprendizado.

Toda a convivência com o Frei Rui foi enriquecedora. Quando alguém pedia algo que ele não podia dar, ele dizia “não”, mas mesmo assim acabava dando alguma coisa ou fazia alguma coisa para ajudar. Ele às vezes tinha que dizer “não” porque era muita gente pedindo muita coisa o tempo todo. Mas ele sempre acabava por ajudar todo mundo. Nunca deixava ninguém sair da sala dele de “mãos vazias”.

A gente conversava muito. Ele era muito inteligente. Conviver com ele era gostoso, havia uma troca muito boa, crítica e, ao mesmo tempo, saudável e bem-humorada.

Quando eu comecei a ajudar o Frei e as irmãs em Piraquara, eu tirava férias, as vezes de um mês, e ficava ajudando.

As Irmãs me hospedavam na casa delas e eu ia para as Comunidades com o Frei todos os dias. Trabalhava muito e me sentia bastante útil e realizada por estar ajudando. Eram as melhores férias que eu tinha. Certamente um banho de vida, de bondade e de caridade. Nunca me arrependi de ter feito isso. Nessas convivências, eu aprendi muita coisa. Entendi como sempre fui privilegiada.

Durante dois anos eu atuei na ABSR (Associação Beneficente São Roque) como Gerente de Projetos. Depois eu fui morar fora do País e mantinha contato com o Frei pelo telefone. Eu ligava sempre para ele, que brincava comigo dizendo: “Quem é? A Ligia? Aquela que tem a voz grossa? A Ligia, aquela que mora em Nova York?” E assim ia a nossa conversa. Sempre divertida.

Eu tive a felicidade de pedir para ele fazer a celebração ecumênica do meu casamento. Reuni alguns dos meus melhores amigos e a família mais próxima e fizemos uma bênção no jardim da casa das Irmãs e foi tudo muito bonito e divertido. Jonas, meu marido, preparou um texto cheio de “sabedoria (piadas)” sobre casamento. Lembro que todos riam muito, incluindo o Frei. O Frei falou algumas palavras e foi emocionante. Uma bênção cheia de boas recordações e bom humor.

E foi assim que um milagre chamado Frei Rui tocou na minha vida ontem, hoje e sempre.

Ligia entre o marido Jonas e o Frei Rui, no dia

da bênção da celebração ecumênica do seu casamento,

ocorrida no jardim da casa das Irmãs, no São Roque.