Depoimento
Kazuco Akamine
Eu sou Kazuco Akamine e por mais de três décadas, atuei na Alta Costura em Curitiba. Atendia a elite econômica, social e política do Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Brasília e algumas clientes do exterior, como EUA, Inglaterra e Itália. A nossa Embaixatriz da Inglaterra trazia a agenda do ano: jantares com a Rainha Elizabeth, Teatro, Ópera e data de oficialização do verão, através da famosa corrida de cavalos, Royal Ascot! Para cada evento era necessário elaborar um traje com a devida atenção. Também tive o privilégio de ter como cliente e amiga, a renomada Madalena Tagliaferro, considerada uma das grandes pianistas do século XX, que residia em Paris.
Fazia desfiles de moda no Clube Curitibano. Dava sempre, atraente resultado e a renda era destinava para Instituições de caridade.
Certo dia, no início de um determinado novo ano, encontrei uma amiga e comentei que faria um desfile em março e não sabia a quem destinar a renda.
Ela prontamente, falou sobre Frei Rui!... Relatou as dificuldades financeiras por que estava passando, com agravamento do açougue que não queria mais fornecer carne ao hospital, e o posto de gasolina que não queria mais fornecer o combustível.
Frei Rui necessitava de combustível, para atender as famílias mais carentes que moravam longe. A Festa de Natal naquele ano, segundo relato da minha amiga, tinha sido muito pobre: só na base de biscoito e leite para os doentes internados.
Ela contou também, que havia ganho um anel que valia 2 mil reais para fazer uma rifa; mas conseguiram amealhar apenas mil reais.
Com esse valor em mãos, resolveu investir 50% em leite em pó e com o restante comprar uma pomada muito especial que o Frei Rui necessitava para um paciente que não podia receber sequer, um lençol no corpo. Qualquer contato, causava muita dor. Havia um aramado sobre o qual, se colocava lençol e as cobertas. Ela comprar apenas duas pomadas, tal era a exorbitância do preço. Ela ficou arrasada!...
Eu disse: — “Está bom. Farei o desfile para o Frei.”
Quando liguei para o Frei Rui, dizendo que faria um desfile de Alta Costura em breve, e que gostaria de oferecer a renda para suas obras sociais e portanto o convidava para estar presente; e então ele me disse:
— “Ah, minha senhora, eu sou um Frei que fez voto de pobreza. Eu vivo de sandálias. Eu não sei circular entre madames, eu circulo entre a pobreza...”
Ao que respondi:
— “Frei Rui, eu gostaria de dizer ao senhor que a dor entre os simples é mais digerível, pois compartilham com amigos, vizinhos e parentes. Mas a dor, na alta sociedade é mais profunda, solitária, pois precisam ostentar sucesso, sem dividir suas dores angustiantes...”
Ele aquiesceu e disse:
— “Minha senhora, eu vou pensar sobre isso.” Nessa mesma noite ele se recolheu, meditou, e escreveu uma linda matéria sobre a moda!
Ele compareceu ao desfile e eu li o seu texto. Em todos os outros desfiles ele esteve presente e acontecia algo inusitado. Em nenhum desfile de moda havia uma prece, mas nas nossas passou a ter, pois estava sempre presente, o Frei Rui.
Sempre que implantavam um curso de moda em Curitiba, convidavam-me para a aula inaugural e eu sempre levei uma cópia do escrito pelo Frei.
Futuramente, todos terão acesso a essa obra, pois pretendo fazer um banner para acrescentar ao acervo do Frei Rui que está sendo tão cuidadosamente preparado.
Nos tornamos amigos e, de vez em quando, eu ia a Missa. Eu não sou católica praticante, mas ia a Missa e ele pedia que eu fizesse a Homilia. Ele me passava o trecho da Bíblia (Evangelho) na véspera e em dado momento, me chamava, eu que estava entre os fiéis, e me pedia para fazer a Homilia. Eu falava sobre o que estava escrito na Bíblia e fazia uma conexão com as coisas naturais na vida, com as realidades das nossas vivências... Foram dezenas de Homilias.
Certa vez, fui entregar um cheque, resultado do desfile, e ele nos convidou para conhecer o Hospital. Levou-nos primeiro à ala masculina e foi uma experiência deveras impactante. Na primeira cama da dessa ala, havia um senhor eretamente sentado e a sua frente, dois senhores, e juntos tomavam chimarrão descontraidamente. E o Frei perguntou-lhe sobre sua mão, ao que respondeu:
— “Ah, Frei, depois que retiraram os ossinhos, não está doendo mais.” E ele, estava bem ereto porque ele não tinha coxa e nem as pernas. O seu tronco era colocado diretamente sobre o colchão. Por isso aquela posição!... Conversamos com todos e chegamos num jovem rapaz, cuja cama ficava sob a janela. Tinha um lindo sorriso e era tetraplégico com as mãos retorcidas. Não sofria de hanseníase. Ele atirou-se num rio ou lago, bateu fortemente a cabeça na pedra e ficara inutilizado. Ele pleiteava há tempo uma cadeira especial, com a qual ele poderia ter alguma autonomia. Em certo momento perguntou:
— Frei, quando o senhor vai poder me dar a cadeira que eu peço?
O Frei redarguiu:
— “Quanto tempo leva para ficar pronta a cadeira?”
Ao que o rapaz respondeu: — “Quarenta dias.”
E o Frei disse: — “Então pode pedir”.
O rapaz ficou extremamente feliz, e disse: — “Então no Natal, terei uma cadeira nova?...” Com seu lindo sorriso, expressava incontida felicidade!
Marcou-me profundamente essa vibração, esse entusiasmo. Uma lembrança indelével, pois já havia visto pessoas aborrecidas por não passarem final de ano, num transatlântico no Caribe, e ele por uma cadeira de rodas, estava exultante! Uma grande lição de vida.
Por último, visitamos a ala feminina. A atmosfera apresentou-se bem diferente. Elas externavam amarguras!... Não conversavam entre si, como vimos nas alas masculinas. Nem foram tão receptivas conosco... Conclui que, a mulher por gestar durante 9 meses um ser dentro de si, amamentar em seu seio, velar pelos seus filhos com energias retiradas das entranhas de suas almas e depois serem retiradas sem seu consentimento, e ser internada num hospital depreciado, marginalizado pela sociedade !... Dizemos hospital por delicadeza, mas chamava-se Sanatório, Leprosário... A dor entre as mulheres era extremamente profunda.
Frei Rui, sempre circulava com sua Kombi levando seu coral infantil.
Certa vez um joalheiro de Campina Grande do Sul, e sua esposa, foram a Joinville visitar sua filha. Vândalos entraram em sua casa, roubaram e atearam fogo. A casa era de madeira e nada restou. Após o meu trabalho, já ao entardecer, passei por lá e consternada, vi aquele chão cinza, sem um vestígio da casa anterior, apenas uma fumacinha branca saindo de um ponto...
O meu cansaço fez-me adormecer rápido, mas acordei às duas da manhã, após três horas de descanso, não podendo conciliar o sono pelo choque daquela visão escabrosa. Levantei-me para coletar em minha casa, artigos que lhes poderia ser útil na recomposição de uma nova casa. Iniciei pela despensa. Tinha coisas em excesso, pois casei-me com um viúvo e também, tinha a casa de minha mãe que se juntara a minha. Então, havia artigos de três casas numa só. Preenchi 7 conteiners de plástico e logo pela manhã, fui entregar na casa de seu filho. Era 8 de dezembro de que ano? e pensei também, que era um mês mais dispendioso, pois haveria presentes de natal, quem sabe, e acrescentei um cheque com um valor qualquer...
Ao entregar tudo ao seu filho, comentei que deveríamos fazer jantares para arrecadar dinheiro para reconstrução de uma nova casa. Disse que eu me responsabilizaria na preparação dos frangos, ao que depois da minha saída, a esposa dele desdenhou: — Imagine, a Dona Kazuco cozinhar os frangos?!...
Seu julgamento, foi porque, atuando no designer em Haute Couture, costumeiramente, vivia de salto alto e joias.
Procurei a paróquia local, requisitando o salão de festas para o planejado jantar. A capacidade era para 300 lugares. Procurei meus contatos em Curitiba pedindo colaboração na venda dos convites e para minha perplexidade, em três dias, venderam tudo. Era necessário então procurar um local maior, pois havia os residentes locais. Procurando a Prefeitura, consegui o salão de eventos com capacidade bem maior.
Foram vendidos 630 convites. Precisa então, elaborar o cardápio e criei o “FRANGO ao PIXURI”.
Iniciei a campanha de arrecadação do que era necessário. A primeira cliente para a qual telefonei, ofereceu-me 50 quilos de frango! Quase caí dura! Era muita generosidade. E, assim continuou, todos os corações florescendo em grandiosa generosidade! Ganhei tudo que era necessário para um belo jantar.
Consegui louças, toalhas brancas, rosas vermelhas para todas as mesas, e ainda para o palco. A decoração ficou belíssima! De repente, apagaram-se as luzes, e uma soprano entrou toda de branco com um castiçal de prata e 7 velas acesas, elevando sua voz penetrante, a sensibilizar todos os convivas. E o Frei Rui, compareceu com suas crianças para cantar.
Morei um tempo no Rio de Janeiro e lá, atuei como voluntária com a Eunice Weaver, na Sociedade de Defesa Contra a Lepra do Brasil. Quando seu marido foi Reitor da Universidade de Juiz de Fora, pela segunda vez, Eunice procurou o então presidente Getúlio Vargas, com a intenção de atender com dignidade as crianças sadias dos pais leprosos que haviam sido isolados compulsoriamente da sociedade, pois que a lepra ainda não era curável, e sua endemia se tornara um problema nacional.
Quando propôs seu projeto ao então Presidente da República, Getúlio Vargas, ele arguiu:
—“Impossível, minha senhora”
Ela então, respondeu-lhe: — “Gostaria de dizer à Vossa Excelência, que o difícil a gente faz. O impossível, a gente demora um pouco mais!”
O presidente Getúlio Vargas, fascinou-se com tamanha força de argumentação e lhe falou:
—"Então, a cada Cruzeiro (moeda da época) que a Senhora conseguir da Sociedade, a Nação lhe dará dois!”
Certa vez, veio-lhe a notícia de que foram encontradas no rio Solimões, duas crianças absolutamente desidratadas e engatadas uma à outra, feito vermes. Ela viu então, a urgência em criar abrigos dignos para dar educação, lazer e dignidade a esses filhos que não tinham para onde ir. Geralmente a prole era grande e os parentes também não tinham condições de absorver mais essa carga dispendiosa e complexa. Criou-se então 23 educandários, desde Amazonas, Acre, Rondônia e Rio Grande do Sul e assim, todos os irmãos se mantinham sob o mesmo teto, em segurança e bem atendidos até atingirem a maioridade. Para Rondônia e Acre, não havia estradas e muitos dos materiais para construção, foram pelos aviões da FAB- Força Aérea Brasileira.
Quando mudei-me para Curitiba, procurei a associada da Fundação Eunice Weaver, que era o Educandário Curitiba, onde fica hoje, a sede da ABSR – Associação Beneficente São Roque.
Esse educandário, abrigava os filhos dos pacientes do São Roque, instalado em largo espaço no município de Piraquara. Dona Justina Maranhão era a Presidente.
Era uma grande construção em forma de U. Uma boa estrutura, num terreno de 11 alqueires. Havia uma construção, onde funcionava uma marcenaria, desativada há alguns anos. Também, um bom espaço para horta, com dois piscinões destinados para compostagem.
Pedi licença para reativar esses espaços e foi um sucesso. Algumas peças foram produzidas para venda e a horta produzia tanto, que o excedente era levado para venda no Mercado Municipal.
Restauramos as enfermarias, pintando todas as paredes com paisagens inserindo Branca de Neve e os 7 anões. Decoramos os dormitórios, e criei um grupo de voluntárias que costuravam em suas próprias casas os uniformes dos internos. Implantamos também um pomar.
Realizadas essas atividades, era tempo de pensar em artes e recreações. Realizamos grandes festas juninas e peças teatrais. A capela foi construída com um palco, o que tornava a construção polivalente. Passei horas incontáveis pintando cenários para as peças a serem apresentadas pelas crianças. Criei também, um Coral.
Logo que cheguei a minha aflição era ver as crianças descalças ou com chinelos havaianas no clima curitibano que eu particularmente, vindo de locais quentes, achava muito frio. Evidentemente, empenhei-me em conseguir tênis para todos eles. Em pouco tempo, passei a vê-los descalços novamente... Perplexa, descobri, que trocavam com moradores da vizinhança por chicletes!...
Anos depois, passei a frequentar o Sanatório São Roque. Ia às missas do Frei Rui na bela capela anexa e depois tomava café com a Irmã Inês e outros amigos da instituição.
Frei Rui, atendendo os moradores da região após cada missa, não entrava para tomar café conosco. A prioridade, era dar alento àqueles que o procuravam!...
Agora tem uma coisa que me pesa na alma. Uma vez o Frei Rui foi fazer uma prece na casa de uma cliente, amiga minha. Ela reuniu umas amigas e o Frei Rui fez a prece e pediu para que eu falasse. E eu tenho facilidade para falar. Não me nego. Mas aquele dia eu não quis falar. E ele me pediu uma segunda vez, e eu neguei. Eu estava como que tolhida. Ele acabou falando, e também não foi bem. Talvez ele estivesse muito cansado. Isso me fez mal durante muito tempo. Por ter negado. Mas hoje eu entendo que alguma coisa do ambiente não deveria estar favorável para mim. Havia algum impedimento naquela casa, naquela noite. Foi uma coisa além do normal. O Frei Rui não falou bem e eu me neguei duas vezes a falar. Mas nunca falei sobre isso com ele pois sempre fomos muito ocupados e só conversávamos o essencial.
O Frei Rui nunca negou ir aos meus desfiles. Ele sempre compareceu, era uma presença especial. E fazia uma linda prece.
Isso, no momento, é o que me lembro da minha vivência com o Frei Rui.
Kazuco Akamine: A moda é uma arte.
Frei Rui: amigo de todos!