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Depoimento

Ir. Natalícia Eger

O Frei Rui e a Comunidade Franciscana (12/01/2021 – 7º. Mês de falecimento do Frei Rui)

Lá vai São Francisco, pelo caminho

de pés descalços, tão pobrezinho...

O Frei Rui esteve junto com a Comunidade Franciscana do São Roque por quase 40 anos. Foi o Frei que atuou por mais tempo naquela Comunidade.

A Fraternidade das Irmãs Franciscanas de São José, durante todo este período, foi o esteio, a base, a mão amiga e colaboradora para as diversas ações desenvolvidas pelo Frei Rui no Hospital e ao seu redor.

As Irmãs Franciscanas de São José chegaram no Hospital São Roque em 1926 oriundas da Holanda e Alemanha.

Ajudaram desde o início, nos preparativos para a inauguração do Hospital, e estão lá até hoje.

Sempre trabalharam nas diversas áreas do Hospital, como enfermarias, áreas administrativas e de suporte (costura, limpeza, cozinha, lavanderia, etc.), bem como nas ações de caridade e religiosas da Capela e arredores. Abaixo temos o depoimento da Irmã Natalícia Eger, que atua nesta Comunidade Franciscana desde 1979.

Depoimento Irmã Natalícia Eger

“Frei Rui Guido Depiné chegou ao Hospital São Roque no dia 12/12/1978. Era jovem, dinâmico, não tinha medo do trabalho. Veio para substituir seu confrade Frei Câncio Berry, capelão do Hospital. Em pouco tempo cativou os internos, vizinhança, pobres e ricos.

Continuou o serviço de capelão e nas horas de folga arrumava material de construção. Fazia pequenas casas (5x7) para os mais carentes; familiares de internos; construía banheiros para os que não tinham etc. Os mais ricos ajudavam com o material de construção. Costumava dizer: Em atendendo bem os ricos, posso sempre ajudar os mais pobres.....

Teve uma época que durante três anos seguidos plantou com a ajuda de dois funcionários, milho, soja e trigo no terreno desocupado do Hospital. A mãe terra produziu muito, mas teve dificuldade de vender pois pensava utilizar o lucro para os pobres.

Enfrentamos tempos difíceis no relacionamento com a direção do Hospital e Estado. Uma equipe veio especialmente encarregada de acabar com a Comunidade Religiosa daqui. Descobrimos isto e nos incomodaram muito. Lutamos e resistimos bastante, e quando percebemos, descobrimos que Frei Rui já havia pedido demissão.

Estava preocupado como se manter, mas, no mesmo dia apareceu um envelope debaixo da porta de sua casa, com mais dinheiro que o de seu salário como capelão. Dizia: “Quando uma porta de fecha, outra se abre.”

Na seqüência muitos benfeitores foram surgindo e ajudando para que ele pudesse continuar ajudando os mais pobres.

Numa ocasião de desentendimento com o secretário da Saúde, o Frei pendurou uma peça de pano preto de alto a baixo na torre da Capela, chegava até ao chão.

Era desprendido totalmente, se vestia de modo muito simples, nunca o vi com sapato nos pés, usava simplesmente sandália franciscana. Agasalhava-se pouco. Certa vez ganhou de um benfeitor, um polover verde musgo, muito lindo e quente. Na primeira vez que usou, veio um pobre pedir ajuda, arrumou comida e entregou, tirou o polover e entregou também ao pobre. Era seu costume quando recebia um presente, na maioria das vezes nem mesmo abria e já passava adiante. “Chegou a dar o presente que recebeu para o próprio doador” sem nenhum escrúpulo, nem se deu na conta.

Frei Rui sempre deu apoio e segurança para nós Irmãs. Foi um irmão nosso. Sempre solícito e fraterno.

A lenha para o fogão da cozinha das irmãs era ele que providenciava.

Tinha o mínimo necessário na sua casa, fazia as refeições com as irmãs. Sempre fez questão de não ter TV, geladeira, comida ou bebida em sua casa. Quando adoeceu encontramos na casa: cama, escrivaninha, armário, estantes e livros. Livros era o que mais tinha.

Lia muito, gostava de escrever poesias e outros textos. Ficava até tarde da noite lendo e se preparando para as celebrações. Gostava de preparar bem todas as celebrações: Missa, Batismo, casamento, sepultamentos, aniversários etc.

Era constantemente chamado para atender pacientes graves na UTI, de dia ou de noite, não tinha hora, se expunha a riscos, mas enquanto podia, nunca deixou de atendê-los.

Em momentos de lazer, inventava jogos, brincadeiras, tinha um número de mágica que gostava muito de fazer.

Amava a natureza e os animais. Sempre aventureiro. Uma noite na chácara em Morretes, tarde da noite, descalço, foi andar no mato e trilhas; lá pelas tantas sentiu como que espinhos em cima do pé, mas continuou, pois gostava de ouvir sinais e barulhos de cada animal. No dia seguinte estava com o pé muito inchado e apareciam quatro marcas tipo picada de insetos, eram as presas de uma cobra que lhe havia picado. Não lhe fez muito mal porque estava tomando elixir de inhame.

Quando mais jovem e durante muito tempo, sempre muito esquisito, arisco, esperto, quando lhe falavam em comemorar seu aniversário, silencioso saía de casa já dois dias antes e voltava depois, bem quietinho como se nada tivesse acontecido.

Isto é um pouco do que percebi enquanto convivi com Frei Rui de 10/01/1979 até 27/11/2017.”

Irmã Natalicia Eger

Piraquara, 15 de setembro de 2020

Irmã Natalícia Eger

Comunidade Franciscana São Roque

Comunidade Franciscana sempre com amigos

Todos juntos. Trabalho em equipe.

Capela São Roque

São Francisco de Assis

Sua bênção, Frei Rui!