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Depoimento

Hugo Luiz Andrioli

Neste belo depoimento Hugo Luiz Andrioli conta que o Frei Rui costumava dizer que quando oferecia um pote de mel, estava oferecendo um “buquê de milhões de flores”. Quantos potes de mel ele deu de presente? Quantos buquês de milhões de flores? Incontáveis. Mas este gesto, tão singelo, representa muito o que o Frei Rui foi e fez por todos nós.

Este também é o Legado do Frei Rui.

São Francisco de Assis, rogai por nós!

Flores e Mel

Depoimento de Hugo Luiz Andrioli

Meu nome é Hugo Luiz Andrioli, sou Apicultor e Produtor Rural.

Conheci o Frei Rui no ano de 1979. Ele me procurou para ajudá-lo a capturar enxames de abelhas nos telhados do Hospital São Roque, onde ele era Capelão.

Começamos os trabalhos. Enquanto eu manipulava as abelhas para acondicioná-las em caixas apropriadas, com proteção é claro; ele se aproximava, cobria o rosto com uma toalha para não ser ferroado, mesmo assim, era ferroado de vez em quando, sem se importar pois sua única preocupação era proteger o rosto para que não inchasse e despertasse a curiosidade das pessoas, enquanto rezasse as Missas ou fizesse atendimentos.

Aos poucos percebi o quanto nos identificávamos com as atividades rurais, pois ele também foi criado no sítio, em contato direto com a natureza: plantar, colher, criar, fazia parte de sua rotina desde pequeno. Quando seminarista, não hesitava em afastar-se das atividades religiosas para ajudar sua família em época de plantio e colheita.

Foi meu grande incentivador para ampliar as minhas colmeias e, graças à sua ajuda, em pouco tempo consegui uma boa colheita de mel. Lembro da sua alegria quando viu os primeiros potes de mel empilhados. Seus olhos brilhavam, exultava com palavras e bênçãos.

Logo, o apiário que montamos no São Roque começou a dar seus primeiros resultados, assim como sua plantação de soja nos arredores da Colônia. Lembro-me do dia que caminhávamos na plantação de trigo, maravilhosamente verde, cachos carregados mas ainda verdes, porém veio uma grande geada e dizimou tudo. Ele sumiu por um bom tempo. Ninguém soube até hoje onde se isolou, por tanta tristeza. Imagino que visualizaria os milhares de pães que resultariam daquela colheita, que se perdera totalmente. Pois tudo o que fazia, plantasse ou criasse, era para seus pobres.

Geralmente, segunda-feira, era seu dia de folga. Numa ocasião, fomos pescar em Antonina. Chegamos na casa de um velho “caiçara”, morador da região próximo ao Rio Nunes. Chegando lá, este senhor estava doente. Frei Rui, prontamente, levou-o até Antonina para atendimento médico. Passou todo o dia com ele até que fosse atendido no Posto de Saúde, sacrificando sua pescaria e seu dia de folga.

Certo dia, perto da Páscoa, apareci lá em São Roque e ele me convidou para ajuda-lo a distribuir alguns doces lá no Guarituba. Era o início da ocupação daquela área. Com duas Kombis cheias de presentes, estacionamos num determinado local. Fiquei assustado com o número de crianças que surgiram de todos os lados. Não sei como perceberam que tínhamos presentes. Uma grande multidão nos cercou. Parecia que íamos ser saqueados, mas as próprias mães organizaram as filas com disciplina e todos foram atendidos. Parecia o milagre da multiplicação dos pães.

Na chácara em Morretes, ele se tornava um agricultor de origem: calça dobrada até a canela, pés no chão, uma foice nas mãos, alegremente colhia as laranjas, bananas e na moenda, a garapa de cana vinha.

Nesta chácara, um dia subimos um morro e lá de cima se vislumbrava uma bela paisagem do litoral. Comentei como seria belo ver o sol nascer se contemplado lá de cima.

Dias depois, ele apareceu aqui em casa. Estava abatido e, em um dos pés, estavam as marcas da picada de cobra. Disse-me que, dias antes lembrou-se do meu comentário e resolveu ir até o morro, de madrugada, para ver o sol nascer. No caminho foi picado por uma cascavel, pois só andava de sandália ou descalço. Com sua foice matou-a e retornou, com grande dificuldade, até à casa, onde estavam também as Irmãs. Mas não contou nada para elas, embora estivesse passando mal. Só procurou recursos dois dias após o ocorrido, devido ao inchaço no pé. Foi até o Sr. Artur Drischel, saudoso farmacêutico aqui de Piraquara e seu grande amigo. Relatou o ocorrido e o Sr. Artur receitou um anti-inflamatório pois não havia mais nada a fazer.

Isto é inexplicável pois, do ponto de vista médico, a picada da cascavel pode matar em até poucos minutos, se não for administrado o soro antiofídico. Vale lembrar que esta visita ocorreu dois dias após a picada. Frei Rui atribuiu sua resistência aos dois frascos de um tal de elixir Kutelac, feito a base de várias ervas, que ele havia tomado tempos antes, para atenuar as dores reumáticas. Este elixir milagroso também era indicado para combater picadas de insetos peçonhentos e serpentes.

Algumas vezes o acompanhei em visitas às favelas, distribuindo alimentos, doces, roupas e etc. E também em mansões de famílias abastadas como políticos, magistrados, empresários, doutores. Com a mesma humildade, tratava a todos igualmente: ricos ou pobres.

Certa vez fiquei admirado quando ele recebeu um Coral de Espíritas numa Missa de domingo; ou de um Pai de Santo que lhe confidenciou que sentia uma energia poderosa dentro da Capela São Roque, maior que a de seu terreiro. Deu apoio aos evangélicos de várias formas, e pediu para uma senhora interna do Hospital, (que não me recordo o nome), que rezasse ao “Negrinho do Pastoreio” para que ele, Frei Rui, pudesse reencontrar um seu Talismã perdido.

Este era o Frei Rui que conheci. O ecumenista, o homem simples que expressava em seus sermões e poesias, tanta sabedoria. Que transitava com a mesma humildade nas favelas e mansões. O que plantava, criava peixes, colhia frutas e sementes, sempre pensando em seus pobrezinhos. Para mim, um São Francisco dos tempos atuais.

Observação:

Frei Rui costumava dizer que sempre que oferecia um pote de mel estava oferecendo um “buquê de milhões de flores”. Considerando que uma abelha tem dois estômagos: o maior para nutrir-se e o menor serve para armazenar o néctar que extrai das flores que depositam na colmeia para ser transformado em mel. Desta pequena quantidade, pelo menos 80% é evaporado em forma de água. Imagine quantas milhões de flores são visitadas para se produzir um quilo de mel!

Flores

E Mel

Hugo e a caixa de abelhas

Hugo e a plantação orgânica de morango

Frei Rui, o agricultor, pescando...

Frei Rui colhendo laranjas

Frei Rui na chácara em Morretes

Frei Rui e as crianças

O abraço do Frei Rui...