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Depoimento

Heitor Côrtes Netto

Há vinte e oito anos comprei a Panificadora Saint Germain na Alameda Princesa Isabel e seis meses depois, a da Padre Anchieta. E lá conheci a Dona Leoni Scarpin, que era cliente, e que me apresentou a Dona Cleonice Stephen. Fizemos uma grande amizade. E ela, como é a Lindaura hoje, fazia um trabalho de ajuda aos necessitados no entorno do Hospital São Roque. Comecei a participar doando comida, e conheci o Frei Rui, que amei instantaneamente. Fui frequentando o Hospital e a Capela e conhecendo as Irmãs que lá atuavam, como a Irmã Inês, Irmã Natalícia, Irmã Lucila, entre muitas outras que nem consigo nominar.

O Frei Rui era muito simples. Mas era muito culto. A simplicidade dele não tinha ligação com o seu conhecimento. Eu ia assistir as Missas, além de visitar o Hospital. E certa vez eu sonhei que São Francisco pedia que eu reformasse o Hospital. Fundamentalmente, o objetivo não era físico, e sim espiritual. O Hospital São Roque era muito abandonado: os internos, as Irmãs, o Frei. Eram invisíveis diante da sociedade e do Estado. O Hospital chegou a ter 1100 internos, fora os funcionários e a Comunidade Religiosa: uma cidade invisível.

Observei que a alimentação chegava fria aos internos, porque a distância entre o restaurante e os quartos era muito grande. Tomavam banho frio porque o sistema de aquecimento não funcionava direito. Existiam quartos sem condições de uso. O piso do Hospital era de taco, um problema para a saúde dos hansenianos. Então, contei para um grupo de amigos sobre o Hospital e angariei uma ajuda incrível: arquiteta, engenheiro, voluntários, e uma dessas pessoas comentou que seu marido tinha contatos com empresas no Porto de Paranaguá. Ele conseguiu doação com algumas empresas do Porto e eu complementei o valor. Também obtivemos ajuda do Cemitério Parque Iguaçu. Apresentei o Projeto da reforma do São Roque e avisei que ninguém estava ganhando dinheiro com essa ação. Todos os recursos iam para as obras do Hospital e os envolvidos, inclusive eu, éramos todos voluntários.

O Hospital era um lugar muito triste. Não tinham nenhuma perspectiva futura, decorrente da doença.

O objetivo dessa reforma passava por criar maior bem estar a todos que ali viviam, mas também, para aumentar a autoestima dos internos, das Irmãs, funcionários, ou seja, de toda Comunidade.

Nossa inspiração era São Francisco de Assis, que teve a visão do Cristo lhe pedindo: “Reconstrói a minha Igreja.” Então eu fiz muitas camisetas com os dizeres: Amigos de São Francisco de Assis.

Outras pessoas se engajaram no Projeto e foi construído um refeitório completo, onde os doentes eram servidos, por isso, passaram a comer comida quente.

Os alemães fizeram uma doação de armários para todos os quartos.

O banheiro não tinha banheira adequada para os doentes e a arquiteta fez banheiras de aço. Os boilers (para esquentar a água) não funcionavam e foram trocados.

A coleta do esgoto passou a ter a destinação correta.

O Estado ofereceu a mão de obra e também trabalharam na reforma os detentos, de bom comportamento, da Penitenciária.

A Irmã Inês administrava tudo com muita eficiência e cuidado, principalmente com os materiais, para que não fossem roubados.

O Frei Rui deu todo o apoio. Criou as condições dando o ‘espaço’ devido para que pudéssemos trabalhar.

Os internos passaram a tomar banho quente, comer comida quente, e ter um piso adequado.

Depois de dez anos da reforma, os boilers quebraram novamente e os diretores e funcionários da empresa de farinha Moinho Anaconda, deram o dinheiro para a compra de novos boilers.

Essa reforma só teve sucesso em função do pulso firme da Irmã Inês e do Frei Rui.

Um dia o Frei Rui me disse: “Sabe que eu compro cigarros para esse povo?” Eu fiquei escandalizado! O Frei Rui falou: “Meu filho, esse pessoal não têm nenhum prazer na vida e nenhuma expectativa. Então o cigarro ajuda”. Aí eu acabei dando cigarros para eles também.

O Frei Rui me ensinou muitas coisas, a tirar o preconceito por exemplo.

Eu não bebo e a primeira cerveja que comprei na vida foi para um pobrezinho que estava comprando uma cerveja num posto de gasolina. Eu pedi licença para ele pois queria pagar a cerveja. Ele ficou feliz. Eu fiquei feliz. Sem preconceitos.

Uma vez, muito consternado, fui falar com o Frei Rui. Eu não sabia se ele continuaria sendo meu amigo quando eu lhe contasse que era espírita. Ele respondeu: “Ahhh, era isso que você queria me dizer? Pensei que fosse algo importante...”

Sou bem amigo do Padre Zezinho. Um dia pedi para ele vir fazer um Show beneficente. Ele veio e ainda trouxe o Padre Manzotti. O Show foi no Teatro Guairão e ficou totalmente lotado e 100% da bilheteria foi para a ABSR - Associação Beneficente São Roque, que usou a verba para a manutenção dos seus projetos sociais junto aos egressos do Hospital São Roque, bem como suas famílias. Não teve despesa nenhuma. Amigos absorveram as despesas.

Sobre Helena Kolody. Ela era muito minha amiga e também do Frei Rui. Um dia fui visitá-la. Soube pela irmã que ela se recusava a tomar remédio que o médico prescrevera. Ao me ver, ela me confundiu com outro médico e disse: “Oi, Doutor”. No ato, incorporei a fantasia e disse: “Oi Helena! Meu colega médico me disse que a senhora está negligenciando a medicação?” Aí ela passou a tomar o remédio. Rezei e abençoei aquela maravilhosa poetisa.

Outra vez, ia ter um evento da Associação Beneficente São Roque no Restaurante Madalosso e era aniversário do Frei Rui. Ele dava para outros todos os presentes que eu lhe dera na vida. Então pensei em comprar o CD do Padre Zezinho e assim eu fiz. Embrulhei e entreguei para ele. Na hora, passou uma senhora e ele virou para mim e perguntou: “Posso dar para ela?”. Rindo, eu disse: “É seu! Faça o que quiser!”

O Frei Rui foi o homem mais desprendido que eu conheci.

Absorveu a totalidade da alma franciscana.

Culto, muito inteligente, mas, humilde.

Ele me ensinou o desprendimento.

Um dia uns caras, de madrugada, bateram na porta do Frei com violência. Ele falou: “Calma! Preciso dormir. Levanto muito cedo.” Mas as batidas fortes não pararam e ele foi atender. Eram ladrões. Queriam a coleta da Missa. Levaram todo o dinheiro e bateram no Frei Rui. Machucaram ele.

Mas ele nunca desistiu de ser bom e generoso. Nunca me deixava ir embora sem um presente: um pote de mel, uma sacola de poncã, mimosa. Nem me deixava carregar. Levava ele mesmo até meu carro.

Frei Rui era serviço em toda sua pessoa!

Tínhamos um plano de irmos juntos para Assis e ficaríamos no Convento dos Freis. Não deu tempo desse plano se concretizar.

Um dia dei uma palestra sobre Responsabilidade Social. Não queria cobrar, mas me pagaram uma quantia em cheque. E fui almoçar com o Frei Rui. Ele tinha uma conta em uma loja de construção civil para comprar materiais e doar aos necessitados, que precisavam fazer ou reformar suas casas. Perguntei: “Quanto está seu saldo devedor na loja de materiais de construção?” E ele falou o quanto estava devendo. E era o valor exato do cheque que estava em meu bolso. Falei: “O senhor devia!”. E entreguei o cheque. Sincronicidade.

Sou muito devoto de São Francisco e acho que o mais próximo de São Francisco que eu conheci foi Frei Rui.

Fiz muita amizade com as Irmãs também. Irmã Inês. Irmã Natalícia.

Irmã Inês estava internada no Hospital Vita e fui visita-la. Rezamos juntos. Uma bênção. Eu tinha um Terço comprado em Assis, que ganhei da minha esposa, Sueli. Era lindo. Em cada conta tinham duas cruzes. Na última vez que fui visitar a Irmã Inês, eu me ajoelhei, rezei e disse que a amava. E lhe dei o Terço. Ela me disse: “Vou levá-lo para sempre.” No sepultamento, pude ver que este Terço estava em suas mãos.

Aprendi com o Frei Rui uma simplicidade viva, que eu não tinha.

Minha experiência com o Frei Rui é a experiência do eu não sou. Mas eu melhorei.

Heitor: um homem gentil

Frei Rui foi o meu exemplo de vida. Absorveu a totalidade da alma franciscana.

Irmã Inês: muito carinho, trabalho, amor e dedicação.

Heitor e Helena Kolody: uma amizade e uma bênção!

Heitor e a grande amiga Lindaura