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Depoimento

Francisca Barros da Silva

A Dide da Hanseníase

Sua bênção, Frei Rui!

Meu nome é Francisca Barros da Silva, mas todos me conhecem como a Dide da Hanseníase. Vou contar para vocês um pouco da minha história. Eu vim para Curitiba com uma família, para trabalhar de babá. Sou do Amazonas, da Tribo dos Índios Kaiapós, registrada na Boca do Acre do Amazonas. Sou Kaiapó, mas fui criada pelos Apurinãs.

Eu tive uma filha e logo depois fui diagnosticada com a doença de Hansen. Minha filha foi dada para ser criada por uma família e eu fui internada no Hospital São Roque no dia 22/10/1976, às 16 horas. Naquela época, o Frei que atuava no São Roque era o Frei Câncio.

Quando o Frei Câncio faleceu, o Frei Rui veio para o São Roque. Isso foi em 1978. Quando o Frei Rui chegou, ele costumava usar o hábito franciscano.

O médico que me diagnosticou com hanseníase me disse que eu ia morrer com partes do corpo caindo aos pedaços, e em quatro anos eu estaria morta. E eu ainda tinha sido obrigada a dar minha filha para outra família criar. Então eu era revoltada. Era muito brava. E o Frei Rui conversava bastante comigo. E as palavras do Frei Rui foram, aos poucos, me humanizando.

O Frei Rui falou que eu era inteligente, que eu sabia ler, que eu poderia fazer as leituras nas Missas, que eu podia cantar no Coral, e me ensinou sobre Jesus, São Francisco, Nossa Senhora, São Roque. Me ensinou tudo.

Eu era malvista porque era mãe solteira. Então o Frei Rui falou comigo que era bom se eu me casasse. Me aconselhou a encontrar um esposo com quem eu pudesse viver e constituir uma família.

No São Roque tinham algumas atividades recreativas como jogo de futebol aos domingos, cinema e também tinha baile de Carnaval.

Foi num baile de Carnaval que conheci um moço. Ele não era doente. Tinha saúde e morava nas redondezas. Aí eu apresentei ele para o Frei Rui e esse moço começou a frequentar as Missas.

Um dia o Frei Rui falou: “Que bom se vocês se casassem.” E ele casou a gente numa quarta-feira.

O Frei Rui arranjou uma casinha para nós e eu fui morar fora do Hospital. Eu já estava com alta. Não tinha mais a doença. Por isso fui viver com meu marido. Ele deu o enxoval e fizeram chá de panela para nós comprarmos as coisas da casa.

Eu engravidei e tive minha filha Cristiani no Hospital São Roque. Queriam levá-la para o Educandário, mas eu queria criar minha filha. Mais uma vez o Frei Rui me ajudou. Encontrou uma bicicleta e eu fugi do Hospital com a minha filha, na garupa da bicicleta, logo depois do parto.

O Frei Rui batizou minha filha Cristiani.

Mas eu sofria preconceito porque eu tenho sequelas da doença. Falei pro Frei Rui que queria ir embora. E o Frei Rui encontrou uma casa para mim em Curitiba. Aí eu engravidei da minha filha Suellen, que o Frei Rui batizou quando tinha 14 anos, porque eu tinha me afastado de todas as Igrejas. Eu sofria discriminação. Depois, meu marido me abandonou e eu voltei para Piraquara. Eu moro no Jardim Esmeralda.

Esse tempo todo o Frei Rui me ajudou com cestas básicas, com roupas, com remédios, com material escolar para minhas filhas, com gás, com calçados. Tudo o que era preciso.

Eu fui trabalhar no Hospital como Auxiliar de Serviços de Enfermagem e disse para o Frei que eu não ia mais pegar a cesta básica, mas ele falou que eu tinha duas crianças e ia precisar. E continuou me ajudando. Até hoje a Lindaura, da ABSR, me traz cesta básica que eu divido com as minhas filhas, porque está tudo muito difícil.

Minha casa é bem antiga e, depois que o Frei Rui faleceu, o telhado caiu. Quando chovia, alagava a casa inteira, inclusive a minha cama. O único lugar que não chovia era no banheiro. Um dia começou a chover. Eu fui para o banheiro e enquanto eu dormia a água escorreu do quarto para a parede do banheiro, encharcou minha coberta e eu acordei molhada. E comecei a chamar pelo Frei Rui. Eu falava: “Frei Rui, por que o senhor partiu? Se o senhor tivesse vivo, o senhor me ajudava. O senhor me arrumava as telhas.”

Então, apareceu um senhor aqui e me disse: “Compre umas ripas e uns caibros que eu vou arrumar isso para você.” Eu comprei, e ele veio com um funcionário e usou ½ ripa e arrumou tudo. Nunca mais choveu na minha casa. Depois ele me contou que frequentava a Capela São Roque.

Eu não tenho dúvida que foi intercessão do Frei Rui.

Quando eu era interna do Hospital, eu limpava a Igreja. Um dia, era inverno, eu vi que chegou uma gente de fora dizendo que estava com frio e pedindo roupa. Mas, naquele momento, o Frei não tinha. Então ele tirou a própria jaqueta, e deu para o homem.

O Frei Rui é um santo.

Sua bênção, Frei Rui! Intercede por nós!

Dide da Hanseníase

Dide, o combate ao preconceito.

Sua bênção, Frei Rui!

Capela São Roque e a Gruta de Nossa Senhora!