Depoimento
Dra. Isabel Kügler Mendes
MB
Dra. Isabel Kügler Mendes. Conheceu o Frei Rui em 1982 quando houve uma enchente no Paraná e Santa Catarina e, em Curitiba, deixou muita gente desabrigada: sem casa, roupas, comida. Uma tragédia.
Mas o bom povo curitibano e paranaense e brasileiro, de vários locais, ajudou. E a chefia da Defesa Civil recebeu bastante doação para os desabrigados.
Tantas roupas foram doadas que sobraram.
Aí, os responsáveis falaram com a Dra. Isabel para aconselhamento: o que fazer com aquela enorme quantidade de roupas pois precisavam tirar do Ginásio do Tarumã, onde estavam sendo guardadas?
Ela, então, preparou uma lista de entidades para dividir as doações e, entre elas, o Hospital São Roque.
Dra. Isabel é advogada e na época era funcionária da Câmara Municipal de Curitiba (além de fazer parte de muitos grupos de ação social).
Bem ocupada, cheia de afazeres e responsabilidades, um dia a secretária avisa que ela tem uma pessoa esperando para falar com ela.
–“Visita? Neste horário? (era hora de sessão da Câmara)
-“Sim” respondeu a secretária. E completou: -“ Disse que é um Frei. ”
Dra. Isabel foi atendê-lo.
Era o Frei Rui.
-“Não poderia deixar de vir agradecer pessoalmente as doações. E venho, também, fazer um pedido. Venha conhecer o São Roque. ”
Dra. Isabel aceitou gentil pedido e quando lá chegou, para sua surpresa, viu que a saudosa Irmã Lucila tinha lavado, consertado e passado cada peça de roupa doada, e armazenado por tamanho e gênero. Tudo organizadíssimo, como em uma loja. E eram toneladas de roupas em armários dentro da lavanderia.
Em seguida foi levada pelo Frei Rui para tomar café com as irmãs.
Dra. Isabel ficou encantada e soube, naquele momento, em seu coração, que estava conhecendo um local que nunca mais abandonaria, e estava fazendo uma amizade que transpassaria as dimensões de tempo e espaço.
Estava entre os seus.
E começou a ajudar o Frei Rui e a conviver com a Comunidade Franciscana ficando amiga de todas as Irmãs Franciscanas de São José que ali viviam e todas as pessoas que ali transitavam.
Ela ia às Missas de sábado e acompanhava o Frei Rui ao Hospital, que levava a hóstia consagrada para os doentes. Eram mais de 400 na época. Andavam mais de uma hora, entrando em cada enfermaria, e o Frei Rui dando bênçãos, uma palavra de conforto e a hóstia.
Jantava com a Fraternidade e se ia tarde da noite.
Naquela época, no Dia de São Roque (16 de agosto), as famílias dos doentes iam , costumeiramente, visitá-los.
E costumava-se a fazer um churrasco e um leilão de pequenos objetos doados (utensílios domésticos, porta bijuterias, porta-retratos e galinhas assadas), para entretenimento e arrecadação de fundos. Tudo bem modesto. E o Frei Rui, junto com a Dra. Isabel e outros amigos, começaram a pensar em fazer uma festa mesmo. Uma festa grande e vender leilão de bolos, de forma que essa data fosse uma grande confraternização. E começaram os trabalhos.
Organizou-se uma relação dos benfeitores e o Frei Rui e amigos, pediam a doação de bolos para os benfeitores. Muitos não podiam trazer até o hospital e o Frei ia buscar com sua Kombi. Centenas de bolos doados. Certa ocasião somaram mais de dois mil bolos. Foi um sucesso e então, com muito carinho, o Frei fez as mesas redondas que encontramos até hoje ao lado da Capela.
Abaixo da Capela, no barracão onde a Irmã Lucila trabalhava, vendiam-se os bolos e o leilão também passou a ser de bolos e galinhas assadas (posteriormente vendiam também churrasco e comidas deliciosas, como se pode ler no depoimento de Maria Giotto).
A festa passou também a ter uma parte musical. Algaci Tulio, conhecido radialista e Vereador de Curitiba, grande amigo do Frei Rui, montou um grande show com artistas locais, bandas de música – a Filarmônica de Curitiba abria o show – e, para esse, na parte de cima, próximo da gruta de Nossa Senhora, Frei Rui montava um palco a cada festa.
A festa foi adquirindo fama e a cada ano aumentava o número de visitantes dos doentes e de participantes, como de artistas conhecidos que de forma voluntária se apresentavam. Era uma alegria. Ia tanta gente, que uma vez contabilizaram cerca de 10 mil pessoas.
As Irmãs e o Frei Rui contavam com vários voluntários, além da Dra. Isabel, que ajudavam na famosa Festa do São Roque. E, a cada ano, quando a festa era planejada, o Frei Rui e a Dra. Isabel faziam uma lista dos voluntários. O Frei Rui classificava os mesmos como M.B. e B.
M.B. = Muito bom.
B = Bom.
Não tinha voluntário regular, ruim. Nunca. Ou eram bons, ou muito bons, ou seja, os mais comprometidos, constantes, com quem realmente podia-se contar a qualquer hora para qualquer coisa. E eram muitos. Todos eram bons para o Frei Rui, diz Dra. Isabel, Não havia intenção nenhuma de julgamento. Era somente o coração identificando, no livre arbítrio de cada um, a disposição de se colocar a serviço do próximo.
Por vários motivos que não cabe aqui relatar, a Festa de São Roque, depois de mais de dez anos de sucesso, foi proibida pela então administração do Hospital. Uma tristeza para o coração do Frei Rui e de todos que participavam...
Mas, diz Dra. Isabel, o Frei Rui nunca se deixou abater. Ele sabia enfrentar os obstáculos e esses transformar em alegria e bênçãos. Ele se sentia alegre e feliz fazendo os doentes, principalmente, e outros felizes. Páscoa, Natal e mesmo a Semana Santa, eram momentos especiais em sua vida e soube transformá-los em grandes festas de amor a vida e ao próximo. Delas falaremos em outras ocasiões.
Um dia o Frei ficou doente. Foi embora para ser cuidado. Ele, que passara sua vida cuidando dos outros, agora precisava de cuidados. O Frei Rui nem sempre lembrava-se das pessoas. Tinha todos no coração, mas não, necessariamente, na sua lembrança consciente.
A Dra. Isabel ficou muito abalada, triste, como todos. Preferiu não vê-lo onde estava mas ligou para ele algumas vezes na Casa de Bragança Paulista, onde Frei Rui vivia.
Em uma das ligações perguntou:
-“Frei Rui. Sou eu, Isabel. Lembra-se de mim? ”
Ao que o Frei Rui respondeu:
-“Eu nunca me esqueço de uma MB”.
Da esquerda para a direita, grandes amigas do Frei Rui e das irmãs: Helena Kolody, Dalila Braga, Liliane, Frei Rui, Dr. Ramina, Regina Ramina, Dra. Isabel, Cleonice Stephan e Lindaura Linhares Kintopp.
Festa de São Roque
A Festa de São Roque reunia muita gente. Era grande sucesso!
Tinha música e muita diversão.
O Frei Rui construiu as mesas para a Festa do São Roque. Abaixo, o barracão da Irmã Lucila, onde eram vendidos os bolos e demais quitutes da festa.
Festa de São Roque
Tinha até a Banda do Município de Curitiba
A Banda tocava na Igreja e saía tocando pela festa. Era uma alegria!
Vinha Coral para cantar na Missa de São Roque
Música de Banda na Festa do São Roque