Depoimento
Catia Zastani
“Vamos?”
Depoimento de Catia Zastani
“Sim, Frei Rui. Vamos!” Meu nome é Catia Zastani e me mudei para Piraquara quando eu tinha 5 anos. Meus pais eram muito católicos e, assim que chegamos, foram procurar uma Igreja para frequentar e conheceram a Capela São Roque.
A primeira vez que vi o Frei Rui ele estava dando doces para as crianças. E eu achei que ele era um anjo.
Um dia os voluntários levaram bolos. Era a primeira vez que eu via um bolo de chocolate, mas sabia que era o que eu queria. Quando chegou a minha vez, foi o Frei Rui que me deu um grande e delicioso pedaço de bolo de chocolate. Aí eu tive certeza de que ele era mesmo um anjo.
Na adolescência me afastei da Igreja. Casei, tive dois filhos e num domingo resolvi ir à Missa e sentei-me no último banco. Ao final, o Frei Rui veio me cumprimentar e disse:
- “Faz tempo que você não vinha.”
E eu respondi:
- “Eu tô aqui hoje.”
E ele me convidou a participar do Coral. Eu aceitei. Fiquei muitos anos colaborando na Capela São Roque. Mas sempre tinha minhas próprias opiniões e, não raro, eu discutia com o Frei. Eu era uma pessoa difícil de lidar. O Frei percebeu que eu precisava de ajuda.
Na época, a responsável por arrumar a Capela era a Irmã Egidia. Eu sempre a ajudava. Eu fazia as leituras, ajudava a arrumar o Altar, acender as velas, e cantava no Coral. Eu chegava mais cedo e ficava com o Frei na salinha dele e ele lia a homilia e perguntava o que eu achava.
Mas eu era muito crítica. Eu falava que as pessoas iam à Missa sem sentimento. E o Frei respondia que eu ninguém conhecia o coração das pessoas para saber o sentimento delas.
Um dia houve uma discussão com um pessoal da Capela e eu estava indo embora quando resolvi parar e me sentei numa mureta. Estava de cabeça baixa e de repente vi os pés do Frei Rui. Ele me disse:
- “Cátia, tu brigas tanto... Tu tá brigando com as formigas?”
Aí eu voltei para a Capela junto com ele.
Uma outra discussão aconteceu porque tinham muitas pessoas pedindo coisas para o Frei, ao final da Missa. Eu achava injusto porque eu via o quanto o Frei Rui trabalhava, dormia pouco, mal comia; mas muita gente abusava da boa vontade dele.
E eu falei para o Frei:
- “O senhor trabalha tanto! E ajuda quele homem que é um bêbado. Ele está todo dia no bar! Aquela outra mulher vem pedir coisas para o senhor, mas é de outra religião e dá o dinheiro para a Igreja dela.”
E o Frei Rui virou para mim e disse:
- “E quem é tu pra julgar quem merece o meu trabalho ou não?”
E eu falei:
- “Eu não tô aqui para ficar ajudando bêbado, gente que não dá valor e gente que não merece!”
E o Frei Rui respondeu:
- “Mas eu tô!”.
O Frei Rui sempre tinha razão...
Ele falou: “Eu ajudo quem me procura, não pergunto quem é a pessoa. Mas também vou atrás daquele que precisa. Se você quiser eu te levo onde as pessoas precisam.”
Naquela noite caiu uma tempestade terrível em Piraquara e muitas pessoas tiveram suas casas destruídas e ficaram desabrigadas. Era uma hora da madrugada, eu ainda estava acordada, quando tocou uma buzina na frente da minha casa. Era o Frei Rui na Kombi e falou da tempestade, completando:
- “Vamos?”
Ele encheu a Kombi de comida pronta como bolachas, pães, leite; além de toalhas, cobertores e colchonetes. E eu fui com ele para levar às pessoas desabrigadas. Também fui anotando os nomes das pessoas e o que tinham perdido, para ele ajudá-las a reconstruir suas vidas. Foi uma das madrugadas mais gratificantes da minha vida.
Na manhã daquele dia eu tinha dito para o Frei Rui que ele ajudava pessoas que não mereciam. Naquela madrugada eu estava com ele ajudando pessoas que mereciam e precisavam.
O Frei Rui sempre tinha razão...
Uma outra vez, eu estava desanimada. Não tinha vontade de nada e falei para ele que ia parar de ir à Capela. Ele falou:
- “Só por hoje, você vem comigo nas enfermarias.”
Depois das Missas, o Frei ia nas enfermarias levar a Hóstia consagrada aos internos. E daquela vez eu fui junto. Ele entrou num quarto onde tinha uma mulher sem braços e sem pernas. E ele perguntou: “Oi, tudo bem? Está feliz com a vida?”. Ao que ela respondeu: “Tudo bem sim! Tô feliz com a vida!”.
Uma doente, em cima da cama de um hospital há muitos anos, estava feliz com a vida. E eu não reconhecia o quanto a vida é boa.
Hoje não consigo passar um Natal, uma Páscoa, um Dia das Crianças, sem fazer ações para ajudar as pessoas. Este ano estou fazendo Kits de higiene para ajudar mulheres em situação de rua.
O Frei Rui me ensinou que ninguém vive sozinho. Eu me lembro demais dele.
Ele sempre me falava uma frase: “Você pode ajudar mil famílias. Mas se uma família não recebeu ajuda, todo o esforço de ajudar as mil famílias não importa para aquela família que não recebeu o que precisava. Então, tem que ajudar todo mundo.”
Quando eu penso nele, eu penso em alguém que mudou meu interior, a minha alma, minha forma de olhar as pessoas e o mundo. Isso foi um pouco da generosidade dele.
“Frei Rui, suas palavras me curaram, modificaram minhas crenças e me ajudaram a encontrar minha essência, que é feita de luz. Seu amor me transformou. Obrigada. Sim, Frei Rui. Vamos!”
Vamos?
Frei Rui e Catia Zastani
“Sim, Frei Rui. Vamos!”
Catia Zastani na Capela São Roque
Frei Rui e a Kombi sempre cheia para ajudar os que mais necessitavam.
Frei Rui na sua salinha – o Batistério