Depoimento
Avelino e Elizete De Santi
Família De Santi
Depoimento Srª. Elisete:
Somos de Concórdia, Santa Catarina, uma cidade que guarda muitas lembranças especiais para nós. Por volta dos anos 74, Frei Rui atuou, como pároco na cidade onde morávamos, e ia celebrar Missa na comunidade de Sede Brum, que também era transmitida pela rádio, o que fazia com que muitas pessoas pudessem acompanhar suas homilias, que eram sempre muito apreciadas por todos.
Frei Rui tinha um talento especial: ele formou um coral na nossa igreja e vinha uma vez por semana para ensaiar conosco. E sempre se preocupava em buscar as pessoas nas casas para participar do ensaio. Era uma figura muito querida por todos, sempre com um sorriso no rosto e uma palavra de incentivo.
Certo dia, porém, algo inesperado aconteceu: Frei Rui sumiu. Ninguém mais soube dele, e ficamos dois anos sem notícias. Até que, um dia, ele apareceu na nossa casa, atrás do meu pai, Sr. Vendelino Bassani. Minha mãe, Telma, contou que ele estava na roça, num dia com muita neblina. Eu estava lá, trabalhando com meu pai, quando ele chegou.
Frei Rui veio até onde estávamos, com aquele sorriso contagiante, e fez um convite inesperado: queria que meu pai fosse morar e trabalhar no Hospital São Roque, em Piraquara, Paraná. Ele tinha planos de fazer uma lavoura lá e precisava de pessoas dispostas a ajudar. Meu pai sempre foi muito ativo na comunidade, ajudando a todos, mas inicialmente não aceitou de imediato. Ele comentou que indicaria uma família para ir no seu lugar. Então, conversou com um casal recém-casado, pensando que seria uma boa oportunidade para eles começarem uma nova vida.
Porém, a mãe da moça, sua comadre, não gostou do convite. Ela disse que sua filha não iria embora. E falou para meu pai que fosse ele! Na mesma hora, meu pai decidiu que iria ele mesmo. Ele falou com o Frei Rui, que ficou feliz com a decisão, e explicou que, embora quisesse ir, estávamos no meio da safra e precisávamos fazer a colheita antes de partir.
Nos dias da colheita, veio uma grande chuva que impossibilitou a colheita. Então, meu pai decidiu aproveitar a oportunidade para conhecer o local onde iríamos morar: o Hospital São Roque. E, para nossa surpresa, ele se encantou com o lugar. Minha mãe, por outro lado, não gostou nada da ideia de deixar tudo para trás — a família, a casa, a rotina. Mas meu pai, que sempre foi uma pessoa de coração generoso, se apaixonou pelo projeto.
Em uma das visitas do Avelino, meu namorado, com quem eu namorava há três anos; meu pai perguntou: “Você ama a minha filha? Porque vamos mudar de cidade.” Avelino respondeu que não ia deixar eu ir sozinha, pois tinha medo de eu conhecer alguém e esquecer dele. Nos casamos em 28 de julho de 1979, e poucos dias depois, em 6 de agosto, nos mudamos juntos com meus pais para Piraquara.
O Frei Rui tinha reformado um galpão e preparado uma casa grande para todos nós. O hospital era uma verdadeira cidade, com cerca de 1.000 internos na época. Quem cuidava de tudo eram as Irmãs e o próprio Frei Rui, alguns internos, que tinham condições, ajudavam; e os funcionários do Hospital. Em 1981, fui contratada como funcionária do Estado, trabalhando na Casa das Irmãs, na cozinha, na creche e, depois, no CPPI, onde me aposentei após trinta e cinco anos de trabalho e dedicação.
Também fizemos muitas amizades, com os pacientes internados, eles gostavam de conversar e contar suas histórias de como chegaram no hospital, era muito comovente ouvir.
Depoimento sr. Avelino:
Nossa história com Frei Rui é repleta de momentos marcantes. Eu e meu sogro, Sr. Vendelino, começamos a trabalhar na lavoura. A primeira safra foi de soja, e deu cerca de 400 sacas. Frei Rui dividia uma parte do valor com a gente e sempre providenciava tudo que fosse necessário para a plantação — tratores, sementes, adubo. Então a primeira safra deu para pagar as dívidas. Durante dois anos, plantamos soja, e depois tentamos o trigo, que era uma plantação linda, carregada de grãos. Mas, infelizmente, uma geada fora de época, em 27 de setembro, acabou com tudo, e ficamos muito tristes. Também tentamos milho e arroz, mas nada deu certo, e acabamos tendo prejuízo.
Em 1984, Frei Rui nos levou a trabalhar como funcionários do Estado no Hospital São Roque. Começamos cuidando da horta, e plantávamos todo tipo de verduras para consumo do hospital, também cuidávamos dos porcos. Ele tinha uma paixão por abelhas e, nos dias de chuva, fabricávamos caixas no porão da igreja, pegando os enxames nas redondezas. Um dia, seu amigo do Guarituba, pediu ajuda porque as abelhas tinham atacado seus animais, matando cavalos, cachorros e outros. Fomos lá, ajudamos a enterrar os animais, e à noite, eu mesmo fui pegar as abelhas e colocá-las nas caixas.
Frei Rui também investiu em uma chácara, levando mais de duas mil mudas de frutas — poncã, jaboticaba, banana, mimosa, laranja — tudo era para o hospital e para ajudar famílias carentes. Passávamos o dia cuidando das plantas e colhendo frutas e, à noite, íamos pescar no rio. Frei Rui tinha uma energia inesgotável, não parava nunca! Na chácara, também tinha tanques de peixes, mas ele era muito zeloso e não gostava que pescássemos lá.
Nós também ajudávamos nas festas beneficentes do hospital. Essas festas eram momentos de muita alegria e solidariedade: matávamos porcos, assávamos galinhas, e o Frei Rui recebia do Parisenti mil galinhas, que eram fritas e vendidas. Uma vez, uma doação de duas vacas bravas foi um grande desafio para trazê-las no caminhão, mas conseguimos assar 600 kg de carne de boi para a festa. As senhoras que eram benfeitoras do hospital, doavam 1000 bolos, e tudo era vendido, sem sobras. Muitos amigos ajudavam, como Lintio, Iedo e Bertassoni, que cuidava das bebidas. Foram 04 festas, todas com o objetivo de comprar cadeira de rodas, insumos para hospital e ajudar pessoas carentes. Frei Rui tinha uma habilidade incrível de mobilizar as pessoas para o bem.
Aos domingos, ele nos convidava para acompanhá-lo em visitas às comunidades, sempre com sua Kombi cheia de doações. Buzinava e logo as pessoas começavam a aparecer, formando filas com respeito e organização. Ninguém podia entrar duas vezes na fila; era uma ajuda que chegava a quem mais precisava. Ele visitava bairros como Guarituba, Planta Deodoro, Vila Fuck, Tanguá em Curitiba e Vila Zumbi em Colombo. Frei Rui não tinha limites geográficos na sua ajuda, e sua atenção aos detalhes fazia toda a diferença, sempre fazendo tudo com muito carinho e dedicação.
Em 1984, alugamos um ônibus e fomos com alguns amigos até Concórdia, na Linha Sede Brum, onde ele tinha trabalhado e onde tínhamos morado. Foi uma alegria reviver memórias, visitar os amigos e parentes, e ele tinha um carinho especial por aquela capela e pelo povo de lá. Cada família de Sede Brum acolheu alguns de nós para pernoitar, tornando aquela viagem inesquecível.
Tudo o que ele ganhava, ele doava para os outros. Uma vez, ele me deu uma sandália e pediu de volta, porque a pessoa que a tinha dado iria visitá-lo e queria vê-lo com ela. Então, ele me deu outra, ainda melhor. Em outra ocasião, nos presenteou com um quadro de Nossa Senhora, que havia ganhado de uma família. Quando essa família teve uma questão pessoal, pediu o quadro de volta, e ele nos perguntou se poderíamos devolvê-lo. Nós devolvemos, e depois ele nos presenteou com um quadro da Santa Ceia, que enfeita nossa casa até hoje.
A Paróquia do Bom Jesus, em Curitiba, fez uma reforma e doou muitas madeiras, que as usou para construir casinhas para pessoas sem moradia. Sobre o tanque de peixes na chácara, quando estava cheio, ele esvaziava a água, recolhia os peixes e os distribuía nas redondezas na Semana Santa, sempre pensando em ajudar quem precisava.
Ele tinha uma paixão por jogos, especialmente sinuca, e não gostava de perder. Sempre que podia, vinha aqui em casa jogar, além de gostar de basquete e bocha. No antigo mercadinho onde hoje é o CPPI, ele construiu uma pista de bocha e era imbatível nesse jogo. Ninguém ganhava dele!
Dos nossos três filhos, dois foram batizados pelo Frei Rui, que realizava cerimônias muito bonitas, explicando com paciência a importância do batizado, muitas vezes batizando dezenas de crianças ao mesmo tempo.
Quando comecei a ter problemas de reumatismo, saí da horta e passei a trabalhar como motorista do hospital, mas sempre continuei ajudando-o. Juntos, construíamos casinhas para os doentes e egressos do hospital, ele comprava os lotes e materiais de construção.
Meu sogro, Vendelino, trabalhou na cozinha do hospital por muitos anos, aposentando-se aos 70 anos, e faleceu em 2013. Sua esposa Telma mora conosco até hoje.
Frei Rui também amava o coral da Igreja, e sempre que havia algum evento, ele nos levava para cantar. Mas, com o tempo, ele começou a sentir dores nas pernas, esquecer algumas coisas, e sua saúde foi se agravando. Sua família o levou para Rodeio, sua cidade natal, onde fomos visitá-lo e ele ficou muito feliz.
Nossa família é imensamente grata a Deus pela oportunidade que nos concedeu. A nossa mudança não foi apenas de Estado, mas uma verdadeira transformação de vida. Muitas vezes nos perguntamos como teria sido se tivéssemos permanecido em Concórdia, mas hoje só sabemos agradecer por estarmos aqui, felizes, construindo nossos história.
Temos três filhos, todos formados e casados, e cinco netos que enchem nossos dias de alegria e amor. Estamos aposentados, sim, mas cheios de vida e gratidão. Deus, em sua infinita bondade, foi abrindo portas e colocando anjos em nosso caminho, pessoas que nos orientaram, apoiaram e nos ajudaram a conquistar tudo o que hoje temos.
Ao lembrar do meu amigo Frei Rui, penso em um homem que foi um verdadeiro sacerdote de Deus, dedicando sua vida ao serviço do próximo. Não importava se era dia ou noite, ele estava sempre disposto a ajudar. Com sua humildade e carisma, conquistava a todos, e suas palavras de sabedoria faziam amigos por onde passava. Como diz um trecho da música da valsa de concórdia. “Gente piu bona mai piu nascerá”
Amigos para sempre...
Da esquerda para a direita, Dona Telma, (mãe da Elizete), Elizete e Avelino.
Belo quadro da Santa Ceia que o Frei Rui deu de presente para a família.
Elizete e Avelino no batismo do filho Maurício pelo Frei Rui,
e com os Padrinhos Claudinha e Ieso.
Amigos para sempre...